“Há mails que vêm por bem”

Troca de correspondência entre dois amigos, dois comediantes, dois tipos que não percebem pevide de automóveis:

António Raminhos e Luís Filipe Borges

Caro Borges,

Como vai isso? Não temos falado muito porque tenho andado de um lado para o outro em espectáculos. Basicamente é a desculpa que arranjo para passar mais tempo fora de casa e não aturar as miúdas. A maior parte das vezes nem tenho espectáculos! Fico só a dormir nas áreas de serviço. Ora bem, e nestas viagens tenho andado ao volante de um Renault Talisman, uma berlina que até te faz massagens nas costas! Como é que não hei-de eu adormecer nas áreas de serviço? Para além disso, ainda conta com algo que nunca tinha ouvido falar e que o empregado da pastelaria, ainda agora, fez questão de esclarecer. Chassis 4Control (sistema de quatro rodas direcionais) e amortecimento pilotado, ao que respondi: “Pronto. Está bem! É isso então e uma meia-de-leite.”

No entanto, saltou à vista o nome, Talisman. O que me levou logo a pensar:  se este carro fosse vendido no Afeganistão corria o sério risco de se chamar Renault Talibã. Pelo menos, tinha espaço suficiente para levar malta raptada. Talisman é um bom nome, imponente, mas no mercado internacional há veículos com nomes criados depois de uma daquelas noites de bebedeira em que todas as decisões parecem acertadas, mas quando acordamos apenas ecoa uma questão: porque é que tenho um piercing na uretra?

Entre 1999 e 2006 a Mazda resolveu vender no Japão um modelo de seu nome Mazda... LaPuta. Não percebo porque é que não se comercializou na Europa. Era um bom carro para se oferecer à sogra. Ao mesmo nível tens o Opel Ascona. Ao menos podiam tentar suavizar a coisa tipo, Opel Asgina ou Asgrelo. Ou Asxaxa. Por exemplo, o Pajero em Espanha tinha o nome de Montero, porque Pajero é o mesmo que dizer “masturbador”. Olha uma conversa entre duas mulheres:

-“Tenho um masturbador na garagem!”

- “Ai filha, olha eu tenho um no quarto! Ao menos o teu ainda dá para dares umas voltas”

No Estados Unidos comercializou-se em tempos um monovolume que era grande de tamanho... e de nome: Toyota Estima Lucida G Luxury Joyful Canopy. Quando apareceu, os vendedores tiveram três dias de formação e isto só para decorarem o nome do carro!

Pegando num estereótipo até bastante discriminatório, se há quem nunca saia do armário ao menos pode sair ao volante de um Lancia... Marica.  Mas não penses que isto é algo do passado. Ainda recentemente, cruzei-me com o Opel Mokka. Um SUV espectacular, principalmente se for usado por uma banda de reggae em tournée. Eu cá continuo a andar no meu Smart Fourfour, que se fosse o veículo oficial do Futebol Benfica era o Smart Fofó... peço desculpa. Já não digo mais nada... vou só continuar aqui a beber a meia-de-leite enquanto o empregado explica mais pormenores do Talisman.

António RAMINHOS

 

Caro Raminhos,

De facto, tive saudades. Tanto tempo sem conversarmos. E pensei nisso mesmo, angustiado, enquanto bebericava um gin com os presuntos enfiados numa piscina panorâmica de 20 metros sita num monte alentejano com horizonte a perder de vista, duas horas após almoçar umas migas com quem apetecia casar, e duas horas antes de me enfiar com a namorada num coupé Lexus RC300h, um híbrido vermelho vermelhante vermelhusco vermelhaço vermelhão e passear sem destino pelas planícies circundantes a Évora que fazem Portugal parecer enorme. #MeteNojo

Pois é, o Autohoje resolveu este mês brincar com as nossas diferentes condições de BI. Um Talisman para o homem de família que dorme em áreas de serviço para descansar das filhas; um Lexus para o bon-vivant que, a ter um filho, está no México (e deve encontrar-se de ressaca porque há dois dias mamou 14 shots de tequila durante a sua festa do 16º cumpleaños).

NOTA: filho de Boinas no México? Deve ter nascido com um sombrero. Pobre mãe. Aquilo não foi um parto. Foi uma barragem que rebentou. #AgoraApaguemLáEstaImagemDasVossasMentes

Nas primeiras 24 horas o Lexus assustou-me. Fiz 130 km exclusivamente em voltinhas profissionais por Lisboa e arredores e eis que, enfim regressado a casa, o ponteiro do depósito parecia continuar no mesmíssimo sítio. Primeiro pensei: uau, devo ter uma condução hipnótica. Depois pensei melhor: tu queres ver q’isto avariou? A seguir a Sara entrou na viatura, olhou para o depósito, e vociferou aquilo que jamais mulher alguma alguma vez exclamou: “Onde raio é que tu NÃO foste este tempo todo?”. E só mais tarde, enquanto fazia gelo, percebi: ah, o hybrid faz com que o carro seja poupadinho como um ex-ministro ainda não destacado para a administração duma empreiteira... Portanto, só no dia seguinte – já rolando veloz e buliçoso por auto-estradas – é que o ponteiro despertou da sua modorra. NOTA: sim, fiz gelo porque ela mandou-me uma tostadeira aos cornos. #VítimadeViolênciaElectrodoméstica

Algo que não falta ao Lexus é espaço. Interior, nos seus bancos dá para sentar uma família numerosa; na bagageira cabe perfeitamente um americano médio – ou, como lhe chamamos em Portugal – um Zé Carlos Malato antes da dieta LEV; no motor, sítio convidativo para qualquer gata parideira duma ninhada de 8 felinos. Mas confesso, o que mais ambiciono é ter um dia o tipo de vida que me faça desejar desaparecer para áreas de serviço. Por outras palavras, venham esses filhos e filhas que ocupam todo o espaço e às vezes te fazem entabular demorados diálogos com empregados de pastelaria experts em tecnologias motorizadas. E, pese embora carro de solteiro, o que mais apreciei neste excelso Lexus foram todos os momentos em que a Sara esteve ao volante. Afinal, metáfora do meu destino – que ela tem nas mãos. #ChoraChora #oGajoTambémSabeFalaraSério #EstánaHoradeArranjarumLanciaMarica

Luís Filipe BORGES

Assine Já

Edição nº 1428
Já nas bancas

Digital Papel

Top

Os mais recentes