“Há mails que vêm por bem”

Troca de correspondência entre dois amigos, dois comediantes, dois gajos que não percebem pevide de automóveis:

António Raminhos e Luís Filipe Borges.

Meu bom e velho camarada e cúmplice Raminhos,

Começo assim, com cumprimentos vindos de outro tempo, porque basicamente já não quero fazer parte deste. Atravessamos a época dos festivais de Verão e já estou pelos cabelos (brancos). Como sabe o estimado leitor, há cerca de somente 895 festivais neste rectângulo vertical que dá pelo nome de país vizinho da Espanha. E eu ainda sou do tempo em que as pessoas iam a eventos afins para ver e ouvir música. Agora? Agora não. Os média fazem mais artigos sobre o lifestyle e figurinos barrocos de quem lá vai do que peças sobre os concertos propriamente ditos; interessa muito mais a selfie do que o swing; o rock está morto e já ninguém faz mosh com medo de partir os smartphones em punho. Ainda sou do tempo dos isqueiros acesos, coff coff, sniff sniff, buá buá.

Ciente deste amadurecimento, o sempre sábio Autohoje deixou este mês ao meu cuidado o Volvo V60 Polestar – uma viatura anti-festivais. O carro é mais seguro do que a entrada do Alive onde a polícia pergunta (sic): “Traz granadas consigo?”. Questões duma pertinência cirúrgica e que fazem potenciais terroristas escorrer de imediato xixi pela túnica abaixo. E que levam a respostas como: “Não, desculpe lá. Não me deu tempo de passar antes por Tancos”.

Como sou residente na zona de Algés, aproveitei o Polestar para me pôr a milhas. A barulheira do festival vizinho enlouquece a cadela, atazana o gato e não me deixa dormir até, pelo menos, às 4 da manhã. Maneiras que fingi ser um pai de família na meia-idade, coisa que poderia muito bem ser o caso tivesse este escriba celebrado o matrimónio há cerca de 10 anos com uma então Nelly Furtado em ascensão, e parti na carrinha acompanhado da Sara e 4 filhos imaginários. Uma viagem só suportável graças ao deslizar suave da tecnologia sueca. O Sandro Manuel tinha dores de dentes, a Cátia Marisa só queria ouvir reggaeton, o Sérgio Felipe e a Tatiana Solange passaram o tempo todo à bulha.

O veículo tem a classe de alguém que sabe o que quer e pretende ficar assim doravante. Já não é para pirralhos mimados nem semi-divas de ocasião. Estou até convencido de que o primeiro-ministro possuirá um. Afinal, o prazer da condução do Volvo é a única justificação razoável para Costa se ter pirado no país enquanto se discute Pedrógão, Tancos e maroscas no Orçamento.

Agora despeço-me. Há que mudar as fraldas imaginárias do Sandro Manuel e da Tatiana Solange. Ser pai fictício é muito mais duro do que as pessoas pensam.

Luís Filipe Borges

 

Olá meu velho,

Sim, meu velho, porque aproveitei o teu embalo. Até porque se estás a ficar velho, embalo é algo que apreciarás bastante. Olha se o teu veículo é anti-festivais, o meu acaba por ser o contrário. O Hyundai Santa Fé é um belo SUV de 5 (mais dois) lugares, que dá para levar a família toda a um empoeirado festival qualquer.

Arrisco-me a dizer que, mais facilmente, levava a família toda ao festival... e ficava o resto do tempo dentro do Santa Fé: mais cómodo, melhor som e, sobretudo, menos confusão.

Só há aqui um erro na tua observação. Se, por um lado, Espanha tem 895 festivais não te esqueças que Portugal tem infinitos vezes mil. Festival da Chouriça, do Porco, da Vaca, da música eletrónica, do hip-hop, do reggae, do ragga, do reco-reco.

Há festivais para todos os gostos mas, como tu dizes, já lá vai o tempo em que a malta ia ouvir música e, vá, beber à maluca. Só! Os festivais de verão agora são o único sítio onde mães e filhas acham que têm ambas 18 anos! Mas umas ainda nem chegaram lá e outras já os passaram faz tempo. A maior questão nem é essa! Porque aí até podemos ver um momento familiar muito bonito, onde mãe e filha gritam desesperadas por um gajo no palco, enquanto o pai bebe cervejas numa barraquinha qualquer. O pior é que há malta que vai aos festivais de verão e no dia a seguir o diálogo é mais ou menos algo parecido com isto:

- Fogo altamente fui ver os Smerfles Smesses e não consegui pá!

- Então? Bebeste bué? Apanhaste alto pifo e foste expulso?

- Não! Estive três horas na fila para receber um chapéu.

Que raio de fenómeno é este em que os festivaleiros vão ver uma banda e depois passam o dia em filas para receber um panamá da Control que, curiosamente, era algo que os pais deviam ter usado há uns anos. Se for preciso, não passam uma hora numa sala de aulas ou 20 minutos numa repartição de finanças. “Há um sofá insuflável que vou demorar vinte minutos a encher antes de desmaiar com falta de ar? Preciso de um!”

Depois os festivais não são, nem de perto nem de longe, o melhor sítio para teres uma crise intestinal. Primeiro que tudo, a casa de banho dos homens dá ideia que há gajos que vão urinar como se fossem aspersores de relva. Quando na verdade, o urinol nem sequer é individual é um carreiro interminável de urina que até dá para brincar e meter um barquinho e ver até onde vai!

As casas de banho propriamente dias? Nem sequer quero lá entrar! Tenho medo! Há atentados do Daesh que fazem menos estragos do que aqueles que se veem numa casa de banho de um festival.

Por isso, fico aqui dentro do Hyundai Santa Fé, sossegadito e nem sequer estou num festival! É mesmo só para ter aquela sensação de “ahhhh ainda bem que não estou lá!”.

António Raminhos

 

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