“Há mails que vêm por bem”

Troca de correspondência entre dois amigos, dois comediantes, dois gajos que não percebem pevide de automóveis:

António Raminhos e Luís Filipe Borges.

 

Bom e velho compadre,

Como estás, tudo bem? Por aqui vai-se andando, tirando uma comichão na virilha esquerda, começou na 4ª feira e piora de dia para dia, a vermelhidão aumentou e tem assim um alto tipo maquete de Monsanto que me está a coçar o testíc… demasiada informação? Ok.

O Autohoje, sempre sábio, calculou a neura com que estaria por chegar aos 40 anos e arranjou-me o carro dos meus pais. Bela maneira de matar saudades deles, lá longe, nos Açores. O veículo é só o SUV mais vendido do ano em Portugal e arredores, de sua graça Renault Captur. No caso dos progenitores, o carro até podia chamar-se Renault Bufa, Renault Barata Assassina ou Renault Vómito no Pé. Não interessa desde que continue com o prefixo Renault. Desde o Clio adquirido quando este escriba tinha 14 anos que eles são fiéis à marca francesa.

O Captur é, todavia, um êxito imediato e a toda a prova. SUV estiloso, capaz do triunfo Boca Doce: “bom é bom é / diz o avó e diz o bebé”.

Ora, como não quero que a ternura dos 40 se transforme em tremura dos 50 decidi manter-me jovial e encarar esta nova década sob a seguinte premissa: experimentar regularmente coisas novas. A primeira foi acampar. Sim, cheguei a esta idade sem nunca ter acampado, pese embora tenha armado a tenda muuuuitas vezes.

(pausa para recuperar desta piada e pedir desculpa – mas compreendam, é que estava mesmo à mão, caraças)

Portanto, eu e a futura cônjuge empacotámos o carro como se fossemos para um abrigo nuclear e ala para o parque de campismo da Galé.

Ah, recordo agora que já tinha estado numa tenda – e graças ao Autohoje! A minha primeira colaboração, há muitos anos, foi acompanhar com um diário a aventura off road duma comitiva portuguesa pelos Emirados Árabes Unidos e, num dos dias, acampámos no deserto. Só que: a) a tenda já estava montada; b) não preguei olho por causa do calor e porque alguém da organização referiu escorpiões. Nota: digo às pessoas que não consegui dormir por causa do calor mas na verdade estava aterrorizado com possíveis encontros imediatos com os ditos cujos bicharocos.

Portanto estes 4 dias a navegar pela Costa Vicentina, montando e desmontando uma tenda de 12 metros quadrados (benditos skills de engenharia da Sara), acompanhados pela nossa cadela, a tomar banho em balneários públicos, cozinhar num camping gaz e a adormecer às 23h, estafados pelo sol e pelas caminhadas na areia, foram efectivamente a primeira de muitas experiências novas que espero ter dos 40 em diante. Passo seguinte: saltar de pára-quedas. Sabes se o Autohoje tem alguma parceria com malta dos helicópteros?

Luís Filipe BORGES

 

Olá velhote Borges,

Sim, tu és mais velho do que eu. Percebo que me queiras chamar de “velho compadre” para sentires que não estás sozinho nessa caminhada. Não estás... só que eu vou um pouquinho mais atrás! Já pareces o meu pai que, ainda no outro dia, virou-se para mim e disse:

- Recebi uma triste notícia pá.

- Então?

- Eh pá, morreu um rapaz que trabalhou comigo!

- Um rapaz que trabalhou contigo?

- Sim! Um rapaz da minha idade! Tinha 82 anos.

Olha, o meu pai e a minha família (antes de eu nascer) é que eram adeptos do campismo e praticavam-no exactamente aí na Costa Vicentina. Em parques apinhados de famílias e numa altura em que campismo era realmente a sua definição: “Prática itinerante com alta proximidade com a natureza, onde o indivíduo carrega seu abrigo de forma a atender a principal necessidade de um ser humano: a proteção”.

Agora um indivíduo que faz campismo pensa: “hum... sabem o que preciso para atender a minha principal necessidade de proteção? Um ecrã plasma! É isso que vou levar! Ah! E um avançado! E um frigorífico! E o jacuzzi! Não posso esquecer isso! Não sobrevivo assim!”

Ainda há uns tempos fui a um parque de campismo e aquilo já nem tendas tinha! Eram casas totalmente equipadas com sistemas de som e TV e decoradas por alguém que parece que tem um programa de nome “Querido Mudei a Barraca”. Eu fiz campismo nos escuteiros. Mas era campismo à séria com tendas que demoravas uma hora a montar e que, se no fim, não ficasse em pé alguém ia lá para dentro servir de pilar. Era o, chamado, campismo selvagem. Principalmente porque os selvagens eramos nós. Desde dar bufas dentro da tenda e não deixar ninguém sair, até jogar ao “cilindro humano” em que o mais pesado ficava na ponta e rebolava por cima dos outros todos!

Já não faço campismo, embora use muitas vezes o meu carro como, lá está, um “abrigo de forma a atender a principal necessidade de um ser humano: a proteção.” Já dormi no carro, trabalho no carro, aliás estou a escrever, neste momento, no carro: um Hyundai i30 SW. Uma carrinha que tem, como a marca o diz, espaço para a vida! É maior do que muitas tendas. Tem uma mala com 602 litros e umas linhas nada “abarracadas”, aliás fazem lembrar um coupé. E a verdade é essa! A de que faço grande parte da minha vida aqui... até porque assim é menos tempo que passo em casa a aturar as minhas filhas.

António RAMINHOS

Assine Já

Edição nº 1460
Já nas bancas

Digital Papel

Top

Os mais recentes