Há mails que vêm por bem

Troca de correspondência entre dois amigos, dois comediantes, dois gajos que não percebem pevide de automóveis: António Raminhos e Luís Filipe Borges

Caro Borges,

Estou a escrever-te do cimo de um monte alentejano. Não se trata de uma casa ou de uma quinta. Nem sequer de um daqueles novos resorts de agro-turismo em que pagas para ir apanhar uvas e batatas e brincar aos agricultores. Estou mesmo no cimo de um monte... só.

Essa é vantagem de conduzir um todo-o-terreno. Saí de casa para ir beber um café ao centro de Lisboa e acabei quase no centro da terra. Ao andar num SUV ou jipe pela cidade, até fazemos questão que o presidente da junta não mande arranjar os buracos e deixe as valetas entupidas no inverno. Acho que nunca tinha andado num Land Rover, muito menos neste modelo Discovery Sport 4x4 TD4. Na verdade, a minha incursão no mundo off-road foi com “mui nobre” e saudoso Lada Niva 1.9. Mas aí era off-road, off-pneus, off-suspensão, off-escape porque as peças iam caindo pelo caminho. Este tem um tecto panorâmico que cobre todo o carro, sensores de estacionamento e aproximação, câmara traseira... Mas se for ver bem, o Niva também tinha sensores de estacionamento. Era quando fazia “pannnnn”.  Agora, o Land Rover até tem airbag para os joelhos. Os joelhos! O jeito que isto tinha dado ao Mantorras.

O todo-o-terreno é outro luxo. E o melhor de tudo é que este Discovery é também um carro familiar, que dá para adormecer as crianças até no trilho mais sinuoso. É bom. Mas por outro lado sinto falta do tempo em que as miúdas iam a discutir lá atrás e bastava meter o jipe por um trilho tramado e começavam às cabeçadas uma à outra até se calarem. Por outro lado, com este vou mais longe e mais cómodo. Se as deixar todas em casa.

António Raminhos

Caro Raminhos,

Também estou num monte, vê lá tu. Coincidência, telepatia, cumplicidade, sabe Deus. Mas antes, deixa-me falar-te do mais caro café do mundo. Custou-me 300 euros.

300 euros?! Reages tu, assumindo que atravessei enfim as portas escancaradas do mundo da droga. E foi bom, excelso, sublime, deixou-te sem dormir durante um mês e pleno de útil energia para valiosos projectos?!

Nada disso, compincha compadre companheiro, mas obrigado por perguntares. Foi um Delta normal, tirado em casa, e rapidamente espalhado sobre o meu pc. Então parece que queimou a board, aniquilando um condensador o que levou à destruição do drive. Foi o que o técnico disse, acrescentando: a reparação vai-lhe custar 300 euros. Claro que ele poderia perfeitamente ter dito que o líquido tinha invocado Arkon, provocando uma guerra na distante constelação de Saterinin, por causa dos atritos antigos entre os Brahmas e os Nimbos, que para mim era igual. Arrotar 300 euros? Isso percebi.

E, raivoso, no fito de espairecer, lá segui para um monte da Costa Alentejana ao volante do Hyundai i40 1.7 CRDI de 115 cv, gentilmente depositado nas minhas mãos incautas pelo Autohoje. Bem-hajam. ‘Espera… Vejo agora que o teu familiar custa o dobro deste. Retiro o Bem-Hajam e para o mês que vem exijo um Porsche.

Brinco, como bem te lembras, a nossa relação com a Hyundai vem de longe. Chegámos a ser embaixadores da marca. Glorioso ano cada um teve ao volante do seu respectivo Veloster. Lembras-te quando descobrimos que o Talisca também tinha um? Foi quando percebemos que partilhávamos duas características com este futebolista do nosso Glorioso: o mesmo carro e nenhum jeito para a bola.

Adiante, e em duas palavras, fui feliz. Claro que ajuda não ter filhas às cabeçadas no banco detrás e estar em início de romance. Descobrimos um refúgio nos arredores do Cercal e percorremos apaixonadamente planícies alentejanas, naquela ilusão de que afinal Portugal é enorme. Fizemos amor sob as… ok, ‘tá bom, vou parar de meter nojo.

Em resumo, estes carros que nos couberam são familiares perfeitos para todas as fases: quer a tua - mulher, filhos, gatos; quer a minha - só namorada e possíveis descendentes a caminho. Sendo que, se a paixão der para o torto e porventura se finar, o i40 apresenta uma magnífica babageira para transportar um corpo.

Na próxima viagem tentamos combinar um café a meio caminho. Por favor, deixa o pc em casa.

Luís Filipe Borges

Assine Já

Edição nº 1460
Já nas bancas

Digital Papel

Top

Os mais recentes