“Há mails que vêm por bem ”

Troca de correspondência entre dois amigos, dois comediantes, dois gajos que não percebem pevide de automóveis:

António Raminhos e Luís Filipe Borges.

Caro Borges! Como estás?

Desculpa só escrever agora, mas esta semana foi complicada. Terminei tudo. Não te preocupes, não terminei tudo com a minha mulher, embora ela já me tenha ameaçado várias vezes. Tive de me despedir do Honda HRV 1.6 i-DTEC. Um modelo que a Honda foi recuperar e constituiu, na altura, em 1997, o primeiro SUV do mercado. Era o meu carro desejado e, com os meus 20 anos, houve um momento que poderia ter sido meu! Mas era miúdo... e parvo.

Quase 20 anos, ele aparece aí de novo. E, com ele, vieram também as minhas memórias de adolescência e aquele sentimento do “porque é que te deixei escapar?” Na verdade, este “restyling” é quase como encontrar uma miúda que ignorámos na adolescência porque tinha aparelho e era despenteada e agora ela aparece aí enxuta, bonita e altiva. Nós olhamos e pensamos: “como é que eu não dei uma volta nisto?” No carro! Estou a falar no carro! Ou então passa pela nossa cabeça, “tantas horas que podia ter passado dentro de ti no quentinho” … No carro! Continuo a falar no carro!

Na verdade, os paralelismos entre carros e mulheres são imensos, até neste domínio do “restyling”. Qual é a mulher que não gosta de aparecer com uns apetrechos topo de gama? Qual é a mulher que não gosta de aparecer com um novo para-choques? Qual é a mulher que não gosta de ter a oportunidade de se melhorar e fazer inveja às outras do seu segmento? Sim, porque as mulheres (e homens) também têm segmentos. Umas são mais familiares, outras mais todo-o-terreno. Depois há a minha tia que é um pesado, pelo menos tem pneus para isso.

Mas seja qual for o modelo, para qualquer homem, o importante é que tenha um grande par de faróis. No carro! Estou a falar no carro!

António RAMINHOS

Grande Raminhos, ‘tá tudo!

Pertinente tema o do “restyling”, que permite fazer perdurar a lenda de tantos automóveis. Olha o Mini Morris ou o Fiat 500 ou o VW Carocha, reinventados com estilo, ressuscitados com panache. A sua lenda perdura, a nossa carteira é que não. Os minis antigos eram para tesos como nós, os de hoje podem ser nossos. Se vendermos um rim.

A comparação com o eterno feminino, apesar da ira que pode suscitar na falange femi-nazista, não é de todo despicienda (escrevi esta última parte só para impressionar a minha mãe – que ainda há dias confessou, aos gritos, não ter andado a pagar uma licenciatura em Direito ao filho mais velho para vê-lo terminar como escriba de publicações dedicadas a automóveis). Na verdade, reflictamos na quantidade de indivíduos atraídos a salões da especialidade onde belíssimas representantes do sexo belo posam ao lado das bombas motorizadas. Oh, a ironia. Quantos não irão ao salão automóvel só para ver os ‘aviões’? “Ah, mas eu cá levo a esposa!”, atira de pronto um leitor furibundo. Claro… pensava que podia dar para a troca, não? Ou pior, para abate.

Enfim, somos meros homens, eternas crianças, peter pans de grisalhas cãs. O fascínio pelos carros faz parte do nosso ADN e demonstra pela enésima vez a nossa infantilidade. Veja-se o caso desta notícia, acabadinha de ler: um padre, responsável por 4 ou 5 instituições solidárias, abarbatou-se ao dinheiro dos donativos para comprar um Porsche. Em sua defesa, o sacerdote já assumiu que foi tudo – embora não pareça - por uma questão de fé. Sim, fé. Algo que não se vê, mas sente. Tal qual os 300 cv do Porsche.

Adiante. Este mês, o sempre excelso Autohoje confiou nas minhas mãos incautas um Seat Cupra, e assim fechamos o círculo do “restyling”, tema desta correspondência. Um bólide muito divertido de conduzir. Curiosa expressão esta. Usa-se muito. Embora faça tanto sentido como dizer que o ar é entretido de respirar, a comida catita de digerir ou a Beyoncé boa de… Chega. O Cupra é instintivo, ágil, rápido e tem um preço em conta. Basicamente, é o oposto do Talisca. Os putos picam-se contigo nos semáforos, as donzelas sorriem, os polícias mandam parar. Mas isto foi porque saí de casa em cuecas. Depois de entrar no carro, correu tudo bem.

Luís Filipe BORGES

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