“Há mails que vêm por bem”

Troca de correspondência entre dois amigos, dois comediantes, dois gajos que não percebem pevide de automóveis:

António Raminhos e Luís Filipe Borges.

Luís,

vou contar-te a loucura do meu fim-de-semana. Estávamos ali só os dois, virei-me para ela e perguntei: “É grande, não é?” E ela olhou para ele, com os olhos brilhantes, enquanto mordia o lábio. Suspirou, fitou-me e exclamou: “Pois é, mas pelo que parece é classe 1. São 2,50 euros se faz favor!”

Não imaginas, Borges, as vezes que eu tive de dizer isto pelas portagens de Portugal graças ao novo Hyundai Tucson. Este SUV, que pretende dominar o mercado no segmento, tem 4,47 metros de comprimento, é 6,5 cm mais longo do que o Hyundai ix35 e vem concorrer diretamente com o Nissan Qashqai.

Mesmo que se diga que não, chegamos à conclusão de que o tamanho importa mesmo! Faz parte da natureza humana. E, por isso mesmo, há quem goste deles enormes e robustos e quem não se importe de que sejam pequeninos desde que trabalhem bem. Curiosamente, a Hyundai é uma marca sul-coreana que faz carros grandes. Não sei se se trata aqui de alguma lei da compensação. Curiosamente, apesar de ser coreano, o nome Tucson é dado em homenagem àquela cidade no Arizona. Ainda bem que não foi feito em homenagem a uma povoação portuguesa ou podia chamar-se Hyundai Ranholas (sem ofensa para a localidade).

Mas voltando ao tema do tamanho, também te digo, se houvesse aqui algum paralelo entre os genes dos povos e os automóveis, tenho a certeza absoluta de que os países africanos produziam autocarros... e só daqueles com lagartas!

De qualquer modo, não achei muita piada à minha mulher que cada vez que andava no Tucson não queria sair, sobretudo, porque dizia que há muito tempo que não manejava uma coisa tão grande.

E a verdade é que já está provado cientificamente que as mulheres preferem homens mais dotados, pelo que é possível que se passe o mesmo com os carros. Sentimo-nos mais confiantes, mais seguros e intimida! É certo e sabido de que quando estacionas ao lado de um carro grande ficas a admirar! Por exemplo, eu faço o mesmo, mas no urinol! E até digo: “sim senhor, isso gasta muito?” Por isso, fica aqui uma questão e uma proposta para as demais empresas de marketing. Para quando eu começar a receber mails a dizer “aumente o seu carro” ou “Como fazer o seu carro crescer 8 cm em duas semanas”? Era gajo para comprar!

 


António RAMINHOS

 

António,

penso que estivemos na mesma portagem. Apanhei a mesma senhora. Riu-se a bandeiras despregadas. Mas depois fechei a braguilha. Lamentavelmente, continuou a rir. Classe 1, sem dúvidas. Porque este mês conduzi um SUVinho, ou Jipinho, enfim um “inho” – isso é que importa agora. Portanto não houve hesitações nem extorquir de suado guito. Mas, note-se, foi o “inho” da moda, a sair mais rapidamente dos stands do que pastéis daquele balcão em Belém. Está quase esgotado, anda na casa dos vinte e tais mil (entenda-se os “tais” por mais ou menos extras”) e trata-se do Mazda CX-3 – o veículo que fez a minha cara-metade alegar compromissos, responder à minha pronta inquirição que – e passo a citar – “não faço parte deles”, e desaparecer de casa com a chave do dito.

Maneiras que, e já com 8 anos contados desta excelsa colaboração, vejo-me no contexto de, pela primeira vez, não poder escrever que adorei determinado carro. Mal lhe toquei! Mas enfim, a consorte jura tratar-se de uma companhia estilosa, perfeita, de estilo até agressivo quando necessário, robustez, sensação plena de conforto e performance. Espero, ardentemente, que ela esteja efectivamente a referir-se ao CX-3.

Por isso, e à laia de fecho filosófico da nossa troca de correspondência este mês, aproveito para saudar o privilégio que ambos temos de poder trocar de automóvel como a Katy Perry troca de noivo. E ao mesmo tempo, pelos vistos, satisfazer as nossas companheiras. Quantos leitores poderão dizer o mesmo, mesmo aqueles assíduos frequentadores de salões automóveis? Aliás, ninguém me tira da cabeça que só lá vão, ironicamente, pelos “aviões” que costumam estar ao lado dos novíssimos bólides. Sim, argumentarás, muitos fazem-se acompanhar pelas esposas… claro, pensavam que podiam dá-las para a troca, não é? Não há cá retomas no amor, seus malandrecos. Apesar de tudo o que Hugh Hefner tentou fazer pela causa.

Fora de brincadeiras, nenhum de nós é expert na matéria. Para isso, o estimado leitor tem os restantes 99,9% do Autohoje. Mas ambos torcemos para que alguma da nossa paixão em conduzir maravilhas tecnológicas fresquinhas se reflicta em si, caro ser do outro lado do papel, devidamente entretido com esta página. E que quando algum de vós nos “pica” num semáforo, é porque querem agradecer. Mesmo se nos perseguem durante 5 km da Marginal e depois abandonam o carro algures na Parede por volta das 3 da manhã munidos dum bastão de baseball. É porque fazem questão de transmitir um sonoro “Obrigado”. É. Só pode ser. Não é? De certeza que sim. Por favor. Pois. Logo adormeço sem risco de pesadelos. Espero. Posso?

 

Luís Filipe BORGES

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