“Há mails que vêm por bem”

Troca de correspondência entre dois amigos, dois comediantes, dois gajos que não percebem pevide de automóveis:

António Raminhos e Luís Filipe Borges.

Raminhos, mekiééé, ‘tá tudo, super-pai, maker of daughters, hat-trick father, cobridor da Cachouça, reprodutor implacável?

(nota para o leitor: António segue imparável com 3-filhas-3. Existe uma forte probabilidade de, enquanto lê esta página, ter novamente fecundado a esposa. Quer surpreender o casal pela próxima quadra natalícia? Há um site de artigos vintage onde se pode encomendar um cinto de castidade)

Então, como vão os primeiros dias da Maria Leonor? O milagre triplo da paternidade? Os olhos recém-nascidos e pela primeira vez siderados com a luz do mundo? O soninho? O cocó e o xixi? As contas à vida? O cartão de pontos da Associação das Famílias Numerosas? O melhor do mundo segundo Fernando Pessoa? Todos os sonhos possíveis no destino de três crianças? Ah, quem me dera ter algo mais …do que um provável filho nascido há cerca de 16 anos na província de Tuamelaca, México.

Adiante. Sabes qual é coisa qual é ela que tem 4 rodas e onde não cabem as tuas 3 filhas? O Mazda MX5 ainda a cheirar a pão quentinho que o Autohoje depositou ao meu cuidado este mês! Pelas minhas contas é o 4º modelo homónimo que tenho o grato prazer de usufruir desde os alvores da minha colaboração com esta revista de gente magnânima, loquaz, excelsa – graxa valente no intuito de garantir novo cabrio a breve trecho. Lembro-me de, ao volante do primeiro MX-5, cruzar com Ricardo Quaresma a bordo dum Audi R8 em plena A5 e ficarmos uns homoeróticos segundos a galar os respectivos carros. Como o tempo passa. Era ele na altura um grande talento a passar ao lado duma grande carreira. E hoje, é já um grande talento a passar ao lado duma grande carreira.

A propósito, é virtualmente impossível ao ser humano passar ao lado desta enésima perfeição da Mazda e não exclamar “Eish”, “Wow”, “fffffft” ou onomatopeias parecidas, capazes de confundir uma cobra que porventura vá a passar e acredite que estão a falar com ela (“Como assim ffffft, não é mais sssssssh? Há um erro de concordância, schlop! Este tipo é um nabo gramatical, hisssss!”).

A humanidade adora este veículo esbelto, desenhado num aparador renascentista por semideuses, divertido de conduzir como entretido de olhar, e não desperdicei a oportunidade de ir gozar uns dias nas curvas da Arrábida ao volante do bólide. De alma cheia e cara-metade, a mulher que – em sendo o destino risonho – me dará um filho. Perdão, um neto (acabei de olhar para o meu BI).

Nota: não deixes que uma só filha tua se deixe um dia seduzir pelo canto de sereia, a menos que sejam elas ao volante dum carro destes, e não o contrário. Depois fica a ver os homens cá fora, todos “Eish, schhht, ffft, wow…AUUU! Uma cobra mordeu-me!”.

Luís Filipe Borges

 

Caro Borges,

Sabes porque é Fernando Pessoa disse que o melhor do mundo são as crianças? Porque não teve nenhuma! Sim, são bonitas e realmente fazem parte da nossa vida e ficamos estupidamente dependentes deles. Mas acho que é mais por uma espécie de Síndrome de Estocolmo, ficamos apaixonados pelos nossos pequenos raptores.

E talvez por ter sido pai pela terceira vez, e por solidariedade, o Autohoje sentou-me ao volante de um Nissan Juke Nismo RS. Sim! Nismo! É nismo isso! Peço desculpa. E porquê por solidariedade? Porque o Nismo é um pequeno crossover, com jantes de 18 polegadas, bancos desportivos, que lhe conferem um poder extra, que vai dos 0km/h aos 100 em menos de 8 segundos e tem 218 cv!

Tenho um amigo que teve um carro parecido com o Nismo, mas que deixou-o destravado junto ao rio Tejo. Resultado? Foi parar lá ao fundo. Sabes qual o nome do carro? Nissan Juke Nemo. Peço desculpa, outra vez.

Agora, nunca, mas nunca na vida, a minha mulher me iria deixar comprar um carro destes! Não é, de todo, um carro familiar mas, no entanto, pode ser um carro contraceptivo. Em que sentido? Compras o carro e dizes à tua namorada: “Não podemos ter filhos! Não cabemos todos aqui e não há dinheiro para outro e gosto muito deste”.

O Nissan Juke Nismo surge como um dos desportivos mais baratos e que poderá até ajudar a combater o famoso tuning. Aquela malta que compra um carro e depois liga aos amigos a dizer: “Pá! Tens de vir cá a casa ver a minha bomba! É um Renault 5 de 89 com colunas mixmyfive, jantes cromadas, escape sdrive to the night! O motor? O motor! O motor não tem. Fiquei sem dinheiro”.

Aliás, eu acho que é por isso que somos visitados por extraterrestres, porque eles lá de cima veem carros que são autênticas naves especiais e pensam que são alguém da família. Luzes de neón para meter debaixo do carro, provavelmente para os pneus verem melhor a estrada, pedais em metal, manete das mudanças com uma cobra cuspideira, bancos em tecido felpudo cor-de-rosa e um crucifixo no retrovisor. Porquê um crucifixo? Porque aquilo é um carro que valha-nos Deus! Agora que falo nisso, nunca percebi a coisa do crucifixo no retrovisor. Basicamente o que as pessoas estão a fazer é confiar o volante a um senhor que tem os braços presos a uma cruz. Poupem-se ao trabalho, poupem algum dinheiro e comprem logo um bom desportivo de origem. Eu fico à espera para quando surgir o primeiro desportivo familiar.

António Raminhos

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