“Há mails que vêm por bem”

Troca de correspondência entre dois amigos, dois comediantes, dois tipos que não percebem pevide de automóveis:

António Raminhos e Luís Filipe Borges

Caro Borges,

Como estás? Olha escrevo-te desde Madrid e consegui estar cá no único dia em que o Cristiano Ronaldo não está na cidade. Joga a selecção em Portugal! Não é que fosse beber um café com ele, mas o ego do Cristiano Ronaldo é tão grande que se sente quando ele não está cá. Aliás, quando estava cá o Ronaldo e o Mourinho, a cidade parecia colocada a cinco mil metros de altitude, tal era a pressão no ar. Não estou a criticar, estou só a constatar. Se eu fosse a máquina que eles são e o que já ganharam também teria de ter um ego à altura.

Curiosamente, estou em Madrid a bordo de uma Seat Alhambra... que é produzida em Portugal, mais especificamente em Palmela, de onde saiu com novos motores, conectividade e multimédia. Consome um pouco menos que o modelo anterior e continua divertida de conduzir. É bom! E é feito cá! Mas por muitas especificações que tenha sabes o que as minhas filhas gostaram mais? As portas traseiras. Ao carregar num botão, as duas portas deslizam automaticamente e então era ver as miúdas de queixo caído como se fosse o topo da tecnologia. Isto tem uma razão de ser. Nós vivemos no campo, para elas isto é como a Nasa chegar a Marte. Aliás, eu nunca levei as miúdas a uma feira popular, basta ir com elas a um sítio onde haja escadas rolantes e aquilo é diversão durante horas.

Coisas espanholas produzidas em Portugal... Está tudo do avesso! Mas não inédito. Desde os presuntos à fruta, alegadamente, os espanhóis estão habituados a ir a Portugal buscar coisas para depois venderem como “made in Spain”. Esta luta ibérica sempre existiu e, se formos ver bem, nós somos muito parecidos com os catalães. Também eles não gostam de espanhóis. É um exagero claro, mas, por exemplo, para quem tem amigos que se queixam que Portugal não tem muitas mulheres bonitas a andar pela rua e que “lá fora é que é!” deixa que te diga que Espanha não é muito melhor.

Nas primeiras horas em Madrid não ficava contente com nenhuma espanhola que não tivesse, pelo menos, o peito da Penélope Cruz, o rosto da Paz Vega, as ancas da Sara Carbonero e as unhas dos pés da Jennifer Lopez. Ao terceiro dia dei por mim a piscar o olho a uma velha com um bigode maior do que o Don Quixote e com varizes que mais pareciam os afluentes do Tejo.

Por isso, nem eles são melhores do que nós, nem nós melhores do que eles! A verdade está algures no meio e por isso é que conseguimos coexistir nesta península... mas a nossa comida é melhor! Ah isso é! Eles que se lixem!

António RAMINHOS

 

Grande Raminhos,

Escrevo do Allgarve, como sabes, a única parte de Inglaterra onde faz sol. Em trabalho, perguntas tu? De férias quiçá? Nem uma coisa nem outra mas antes por duas excelsas razões:

1) há em Odeceixe um estabelecimento com pintarola hipster onde a moça sua proprietária manufactura um bolo de chocolate que faz todos os outros arremedos de chocolate parecerem aquela coisa da cor do chocolate mas que não cheira nem sabe a chocolate. Pá, é um bolo que justifica ir e vir de Odeceixe só para trazê-lo no bucho; é um bolo que apetece pedir em casamento ou, no mínimo, levar para um tórrido serão a dois na infra-estrutura do Requinte, sito em Albarraque.

2) O Autohoje, sempre generoso e cada vez mais ciente dos nossos diferentes registos emocionais no que concerne à vida familiar, disponibilizou este mês dois veículos que acompanharão as tuas filhas em – assaz - diversos momentos cronológicos das suas vidas. O teu Alhambra fascina-as enquanto miúdas com as suas peculiares portas traseiras. O meu cabrio poderá fasciná-las enquanto jovens casadoiras à mercê do anzol de mânfios de olho nos seus traseiros.

Bom, agora que plantei em ti a raiz dum pesadelo de contornos épicos, e nestes 10 aninhos que te sobram antes das miúdas frequentarem o Urban, eis duma vez por todas a viatura em questão: trata-se do Mercedes SLC, sistema AMG, de calibre NBC com segmento BPI no factor MPT com capacidade USB e tecnologia MIT na qualidade NBP do ramo TRX da vertente OMG concebida em HDMI com basculações ADN na ponta do BPP do IMI. Qualquer coisa deste género, não interessa. O que importa é, em termos técnicos, o seguinte: um carro do camandro.

Um carro cujo prazer oferecido pela sua condução justifica, com ou sem chocolate de Odeceixe, uma viagem de ida e volta ao sul da Finisterra. Um carro, nota bem, com pintura bem na moda. Em matte. Não consegui entrar no MAAT, outra coisa da modinha, mas circulei pertinho do dito cujo numa armadura em matte. Toma toma. E esta, Mexia? Com o teu ordenado na EDP, de fibra UBI com vectores ESPN e munida de CTT na envergadura do XLR da AMI, não deves ter capacidade para mais do que um Corsa de 98…

Hã… o quê?!... só um segundo… peço desculpa… ok… a sério?!...ahahaha, não pode s… mas é?… ‘tás a gozar… bom, a minha namorada acabou de me dizer qual o ordenado mensal do António Mexia, fora prémios. As minhas desculpas pelo parágrafo anterior. Vou só acabar a croniqueta rapidamente para ir ali ao Cabo da Roca mandar-me ao mar.

Bem, o Mercedes SLC é isso tudo, a concretização dum sonho molhado para solteiros confiançudos ou impressionáveis, e mais um triunfo tecnológico alemão. Mas, tal como no caso espanhol… a nossa comida é melhor que a deles! Essa é que é essa, toma toma, e mainada.

Luís Filipe BORGES

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