“Há mails que vêm por bem”

Troca de correspondência entre dois amigos, dois comediantes, dois gajos que não percebem pevide de automóveis:

António Raminhos e Luís Filipe Borges.

Como está tudo nesse lado do mundo? Sendo que “nesse lado do mundo” está a uns vinte quilómetros do meu, já que não vivemos assim tão longe um do outro! Na verdade, até podíamos estar a onze mil quilómetros que estaríamos perto nesta aldeia global. Estive em Nova Iorque e encontrei um amigo em plena Time Square, o que é bonito, mas ao mesmo tempo leva-me a crer que nunca poderei enganar a minha mulher... mesmo a onze mil quilómetros. Haverá sempre uma fotografia, vídeo ou geolocalização.

Estamos numa era de globalização e tecnologia em tudo! Sobretudo nos carros. A prova disso é que esta semana estive ao volante do novo híbrido Hyundai Ioniq. E percebes que o mundo já não é o mesmo quando um carro tem consumos a roçar o ridículo e faz menos barulho do que qualquer criança!

Aliás, eu para acalmar as minhas filhas bastava enfiá-las no híbrido e dizer: “meninas! Reparem como este carro não faz barulho nenhum a andar!” E elas ficavam maravilhadas e percebiam que, afinal, o silêncio existe e não é assim tão mau! É o carro ideal para os budistas atingirem o nirvana e estado de plenitude, isto aliado ao facto de que, por ser híbrido, ter um consumo médio de 3,4 litros aos 100 km. Mais do que isso, este carro devia chamar-se Ioniq “Sogra” ou Ioniq “Eu é que sei”. Porquê? Porque ao contrário de outros híbridos não é o condutor que escolhe uma utilização totalmente eléctrica ou se usa a gasolina. O próprio carro escolhe qual a melhor opção para reduzir o consumo. Há-de chegar o dia em que não será preciso combustível fóssil ou energia elétrica e os carros andarão com a força da mente. O futuro está perto. Mas sempre fiquei com a ideia de que o futuro está perto e é feio. Agora mudou um pouco a minha opinião e também graças ao Ioniq e à sua carroçaria. Arrojada e com linhas mais desportivas. Nunca percebi muito o facto de que porque é que a maioria dos elétricos e híbridos têm de ser feios como o catano! Agora estão muito melhores, mas sobretudo no início ficava com a ideia de que as próprias marcas não queriam investir muito nesta área, então vá de fazer automóveis quase como se estivessem a dizer “nós sabemos que o ambiente é importante, mas na realidade não queremos vender muito isto!” É engraçado como é a ideia de futuro a cada geração que passa. Havia uma série dos anos 80 de seu nome Espaço 1999, que retratava a vida numa base lunar. Para esta gente o futuro em 1999 era viver na lua, com ecrãs a preto e branco... e com calças à boca de sino! Em 1999, não havia o Nokia 3310 nem sequer a Playstation 2! Mas para 2017 acho que até não estamos nada mal!

António RAMINHOS

 

Caro Raminhos, namaste! Porquê Namaste? Por que não Saravá? Ou Um-ba-dá? Tantas perguntas, tão pouco tempo. Tempo, aquele pacientemente esperado aqui pelo escriba desde o dia um desta colaboração com o Autohoje. Aguardando a concretização do meu sonho automóvel de sempre (sim, aquele que não envolve o banco traseiro duma station e a Monica Bellucci disponível e entusiástica). Lembro-me de, andava nisto há meros dois ou três carritos, quando perdi a vergonha para perguntar ao Sandro (nosso director): “E um Caterham …não se arranja um dia destes?”. Ele respondeu: “Uuuuuuuuuuuuuuiii, essa agora” – que foi a sua forma subtil de me transmitir que ainda estava longe de confiar nas minhas unhas para certas e determinadas guitarras. O Sandro estava certo. Tal como das outras vezes, em que me disse para cortar o cabelo, não esquecer de entregar o IRS e deixar de vestir aquele pólo abichanado às riscas. Agora, a caminho de uma década como visita regular neste templo de culto aos motores, fui finalmente agraciado pela obra-de-arte britânica. Um Caterham novinho em folha. Tempo precioso, de luxo, sorvido como calippos na boca de colegiais a meio de agosto. Tu na cidade que nunca dorme e eu a sonhar acordado. Bonito. Conduzir este tapete voador “made in UK” é ser aplaudido por todos. Ao invés daqueles olhares invejosos que são comuns quando nos encontramos ao volante de outras bombas, o relance deleitado oferecido ao Caterham é sempre carinhoso, admirativo, por vezes acompanhado de polegares em riste ou mesmo uma salva de palmas boquiaberta de quem julga estar a testemunhar um viajante do tempo. Venham as moscas na testa, os glúteos rijos como uma tábua de engomar, os tendões retesados e o formigueiro ao fim duma viagem longa, tudo vale a pena quando o estilo, a alma e o charme não são pequenos. E estes itens, no Caterham, são todos à grande. É um veículo que transcende o mero objecto e torna-se susceptível de gerar amor. Por isso, termino a crónica mimetizando o estilo desse grande best-seller da pieguice descarada travestida de literatura, Pedro Chagas Freitas: Amo-te, Caterham, com o fulgor de vagas na maré alta contra rochas vulcânicas salpicadas do mar salgado lágrimas de Portugal, Caterham, correntes sanguíneas feitas afluentes dum mar agora nosso, entendes? Oh Caterham, anuncia que sim, que não, que talvez, mas não te silencies como uma cabine telefónica velha de fio dependurado, não te olvides de mim como um jornal da semana passada forrando o chão de garagens nuas, Caterham, garagens onde nunca pousaste tuas rodas finas, vírgula, reticências, sem pontos, porque se continuar a escrever assim, Caterham, muito fluido e sem pausas, continuo a enganar tias solitárias e pseudo-leitores cultos no embalo de parágrafos infindáveis disfarçados de ritmo e prosápia, Caterham, cá se pagam, cá se fazem, cá se coiso.

Luís Filipe BORGES

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