“Bom… não tenho muito para vos dizer.” Desta maneira desconcertante começou uma mesa redonda com o CEO da Maserati, Reid Bigland, para a qual fui convidado. Não havia carros novos a anunciar para breve, que era aquilo que me interessava saber, apenas números. Mas até são bons números, dos melhores de sempre na história da marca, com as vendas a atingirem as 42 000 unidades em 2016, num crescimento de 30%, face ao ano anterior, que se traduz num aumento dos lucros em 9,7%. O trabalho de Bigland à frente da Maserati, que acumula com igual cargo na Alfa Romeo, não parece ser dos mais difíceis, mas as aparências iludem. A Maserati vive dias de glória devido ao sucesso que tem sido o lançamento do seu SUV Levante, um concorrente do Porsche Cayenne que domina as vendas da marca, deixando para segundo plano as berlinas Ghibli e Quattroporte e para terceiro plano os desportivos GT e GC, que viram os seus sucessores adiados. Ou seja, os modelos que estão na origem da história da marca, são hoje os menos importantes e nem mesmo do coupé mais pequeno, o Alfieri, chegam notícias concretas quanto ao seu lançamento. Apostar todas as fichas no Levante parece ser a estratégia atual, mas será que isso chega? Em resposta à pergunta sobre se a Maserati poderia lançar um segundo SUV para expandir a gama, Bigland diz que “mais pequeno que o Levante, não é possível, pois esse segmento já está coberto pelo Stelvio da Alfa Romeo.” Por outro lado, lançar um SUV maior que o Levante seria entrar num segmento demasiado estratificado, onde muito poucas marcas operam. Dar luta ao Bentley Bentayga não parece ser a vocação da Maserati.

Mas os “nãos” da estratégia da Maserati não se ficam por aqui. Falando de versões elétricas ou híbridas, Bigland afirma que “as regulamentações obrigam a isso, mas 98% dos nossos clientes não os querem. Está previsto que os façamos, mas apenas quando os consumidores realmente os quiserem.” Bigland considera ainda que todas as marcas estão a vender versões híbridas e elétricas a dar prejuízo, garantindo que “os governos fazem as regras, nós cumprimos. Vamos cumprir todas as normas a entrar em vigor em 2015.” Quanto ao outro tema de atualidade, a condução autónoma, o CEO da Maserati tem igualmente dados negativos a apresentar: “os veículos 100% autónomos não têm lugar na Maserati. Os condutores não querem isso. Não fazem sentido num Maserati.” Realmente, numa marca que assenta a experiência de condução dos seus modelos na emoção, o que faria um condutor querer comprar um Maserati autónomo?...

Com todas estas respostas negativas, começa a ser difícil perceber que direção a Maserati poderá tomar, no futuro a médio prazo. O lançamento do Levante está a correr melhor do que a Maserati poderia ter sonhado, com uma subida de vendas de 102% nos dois primeiros meses de 2017, face ao período homólogo do ano passado. Mas a marca parece começar a estar refém de um só modelo, sem autorização para descer de segmento, para não prejudicar a Alfa Romeo e sem planos para lançar outros novos modelos. Bigland diz que “a Maserati não pode ser uma marca que tenha de tudo para todos. Não pode descer abaixo de um certo nível. Para isso há outras marcas no grupo.”

Ora aqui está uma máxima que o grupo VW nunca seguiu, não se preocupando em ter um, dois, três ou mesmo quatro modelos das suas marcas a concorrerem entre si, nos mesmos segmentos. E não se tem dado mal com esta estratégia, como o provam os dez milhões de unidades produzidas pelo Grupo VW em 2016 e a disputa renhida do primeiro lugar mundial com a Toyota. A Maserati parece estar a seguir estratégias que já caíram em desuso, até porque um cliente da Alfa Romeo não deverá facilmente ser cliente da Maserati. Com esta estratégia de não lançar um SUV abaixo do Levante – e seria tão fácil usar o Stelvio como ponto de partida para criar um modelo rival do Porsche Macan – a marca do tridente poderá estar a ser “tramada” pela sua própria estratégia.

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