Crossland X e Insignia representam o futuro e o passado da Opel, mas depois de os guiar, não sei se o futuro será melhor.

Em menos de um mês, a Opel lançou dois modelos importantes no mercado nacional, não só pelo seu potencial de vendas, mas também por aquilo que representam, nesta fase de transição da marca alemã, ao passar do universo GM para o da PSA. Ao que sei, já foram dadas garantias de que a PSA não quer fechar fábricas da Opel nem fazer despedimentos, uma intenção credível, pois não tem sido essa a estratégia da PSA nos últimos anos; estratégia essa que lhe tem dado muito bons resultados financeiros. Mas, quanto a garantias de continuidade ao nível da engenharia da Opel, pouco foi ainda dito. Em agosto, deverá ser assinado o acordo final e mais detalhes vão ser conhecidos sobre este assunto. Os primeiros indícios não são, contudo, os mais encorajadores.

Nos últimos anos, a Opel passou por uma renovação profunda do seu património tecnológico, nomeadamente ao nível de transmissões e motores, com o lançamento de novas unidades que representaram progressos significativos face aos componentes que substituíram. Falo, por exemplo, de caixas de velocidades, de motores Diesel e motores a gasolina, que passaram por um processo de “downsizing” que lhes trouxe proveitos tanto em performances como em consumos. Em alguns desses casos, a Opel colocou-se no topo das respetivas classes, por exemplo no motor Diesel de 1,6 litros. Até no caso das plataformas houve progressos importantes, com um aumento de eficiência que passou por uma clara descida de peso, necessária para a utilização dos tais motores mais pequenos. Terá sido um dos investimentos mais significativos da marca nesta área, mesmo se não foi perfeito. Fontes da marca confirmam aquilo que se sabe empiricamente, estando de fora, que “a engenharia da Opel é alemã, mas a gestão é americana”; o que tem influência em algumas das escolhas técnicas que são feitas no produto final. “Para os americanos, algumas das exigências dos clientes europeus, simplesmente não fazem sentido” adianta o mesmo “insider” da Opel.

Ainda assim, este problema já foi maior no passado do que agora. A Opel nunca teve carros tão bons nos últimos trinta anos como tem agora, sobretudo quando se fala do atual Astra e do novo Insignia. Dirão os mais céticos que, com a GM a suportar os consecutivos anos de prejuízo da marca alemã, é fácil fazer bons carros. Mas a realidade é que isso é verdade há muito tempo e nunca com este resultado. Mas as coisas vão mudar.

O Crossland X, um SUV do segmento “B” partilha a plataforma, motores e caixas de velocidades com o Peugeot 2008, mostrando o que será o futuro da Opel: usar mecânicas PSA com carroçarias e habitáculos de desenho diferente. Talvez seja por ter sido o primeiro, mas a verdade é que, depois de o guiar, fiquei com a impressão que o resultado final é inferior à soma das partes. Sobretudo na versão 1.6 Diesel com caixa manual de cinco relações: é óbvio que este conjunto de origem PSA é inferior ao que conheço da Opel. Mesmo a suspensão, parece ter passado por uma tentativa de “opelização” que não teve o melhor fim: não tem a precisão habitual dos Opel mais recentes, nem o conforto conhecido dos Peugeot. Do desenho exterior não há muito a dizer, é um Opel típico e isso até pode ser visto como um elogio, pelo menos não perdeu identidade, ao passar para uma plataforma externa e ao estrear-se num novo segmento. Também o habitáculo dá alguma esperança de que o tipo de qualidade apercebida dos últimos Opel possa continuar por mais uns tempos.

Claro que esta parceria começou já há anos, muito antes de a compra pela PSA ser anunciada. Mas custa-me a crer que a ideia (da compra) não estivesse já na cabeça dos líderes da PSA, quando entraram neste projeto comum.

Quando entreguei o Crossland X, passei para o novo Insignia e… que diferença! O simples pisar da suspensão demonstra um compromisso entre conforto e agilidade que nem todas as marcas premium conseguem atingir; o motor 1.6 Diesel, este de origem Opel, é muito mais refinado e a caixa de velocidades manual muito mais precisa. A plataforma Epsilon 2 é uma boa evolução face à usada no primeiro Insignia, tanto no peso como no aproveitamento de espaço: seria uma base de trabalho excelente, para o futuro 508 da Peugeot. Mas isso não vai acontecer. O oposto é mais que provável, daqui a alguns anos.

Com um habitáculo de boa qualidade, uma posição de condução baixa e desportiva, todos os sistemas de ajuda à condução e de entretenimento que se tornaram obrigatórios e mais uma evolução do sistema de faróis de matriz de LED, o Insignia arrisca-se a ser o melhor Opel das últimas décadas. Tem um desenho exterior um pouco genérico, sem muita personalidade, mas isso é um dos seus poucos pontos fracos. Nem os preços são altos. Só que este Insignia, tal como foi feito, com a tal engenharia alemã e gestão americana, representa agora o passado da Opel. Suspeito que nunca mais os Opel vão ser feitos assim, depois de entrarem no universo PSA.

Por um lado, falta saber em que pé fica a propriedade intelectual de tudo isto, que é da GM. Por outro lado, a prioridade da PSA continuará a ser sempre a rentabilidade, com custos muito controlados e sem devaneios da engenharia, dispendiosos e desnecessários aos olhos dos seus líderes. E ninguém poderá criticar esta postura, pois foi a que salvou a companhia. Por tudo isto, parece-me que a Opel, sem o saber, deixou o melhor para o fim, de uma era.

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