A expressão de como uma temporada de Fórmula 1 está interessante e intensa nota-se no clubismo com que cada um defende o seu piloto/equipa preferido. Isto já se sentia no ar desde que a época arrancou, mas tomou proporções maiores desde a já muito debatida corrida de Baku (a ver vamos como acaba o campeonato e se ainda vai ser essa corrida considerada responsável por defini-lo). Hoje tem todo um novo impulso, quando se lê pela imprensa do mundo inteiro que Valtteri Bottas, ao vencer pela segunda vez na vida, já veste a capa de candidato ao título. Bottas, esse «cara legal», como dizem os brasileiros. Quer dizer que tudo o que faz é «legal»?

Boa pergunta. Os fãs da Ferrari dirão que não, os fãs de Hamilton assim-assim, os fãs da Mercedes assobiam para o lado.

Valtteri Bottas é um tipo porreiro. Lembro-me de ver o António Félix da Costa correr contra ele, nas Euroseries de Fórmula 3, os dois partilharam um pódio de uma em Oschersleben e o Bottas já geria corridas como gente grande. Um ano depois voltaram a encontrar-se na GP3. Ele e o «Formiga» ganharam cada uma das duas corridas de Monza, esse santuário das corridas de automóveis. Para mim eram os melhores de um campeonato que tinha o James Calado (hoje corre nos GT do WEC), Nico Muller (está no DTM), Adrian Quaife-Hobbs (Blancpain) e Rio Haryanto (sim, esse mesmo que correu na Manor).

Bottas era reservado, mas tinha cuidado nas entrevistas. Sorria, esforçava-se para encontrar a melhor expressão em inglês, não perdia a calma quando lhe faziam perguntas sobre a namorada, nadadora olímpica, figura de revista do social na Finlândia – uma coisa que na verdade nem existe mesmo a sério na Finlândia; mas aparecia na televisão, ponto. Bottas também tinha uma paciência de santo. Preferiu passar um ano inteiro a viajar para todos os Grandes Prémios, com a Williams, para ver os outros correr enquanto ele «fazia» o carro às sextas-feiras.

Fez-se piloto titular, subiu aos pódios, agarrou a vaga de Rosberg na Mercedes, fez uma pole, ganhou uma corrida. Agora ganhou duas. Ei-lo que vem do frio, Valtteri Bottas, o novo candidato ao título. Fico feliz que o considerem isso e antevejo muitas semanas de debate sobre haver ou não haver primeiro piloto dentro da Mercedes. E sobre se a Mercedes devia ou não estabelecer que há um primeiro piloto dentro da sua equipa – antecipando eu, desde este momento, que vai chegar a altura em que Toto Wolff vai usar as suas sábias palavras para dizer «na nossa equipa não pensamos em primeiros ou segundos pilotos».

Hoje também se pergunta, um pouco por todo o lado, se o que Bottas fez no arranque para a corrida que ganhou, na Áustria, foi legal. A forma como disparou na reação ao semáforo levantou, logo, algumas dúvidas. Eu disse-o: «se foi legal, é um arranque do outro mundo». Sebastian Vettel disse-o, após a corrida: «não foi um arranque humanamente possível». E Bottas também admitiu que arriscou: «fiz o arranque da minha vida». O que é que aconteceu?

Valtteri Bottas fez o que se costuma chamar «adivinhar quando o semáforo apaga». E correu-lhe bem. Muito bem! Tão bem que a FIA, equipada com os melhores equipamentos para aferir da legalidade do movimento – pois tem todas as telemetrias, transponders e sensores ao seu alcance, em tempo real – não descobriu nada de irregular. Então por que motivo anda a circular um vídeo que mostra as rodas do Mercedes a mexer com o semáforo aceso?

O problema não está no vídeo, está numa regra que está em vigor há mais de 20 anos. Ou melhor, está na forma como a FIA declara, publicamente, o modo como analisou o que aconteceu – devia haver uma mensagem clara, «a partida é legal por isto, por isto e por isto», em vez de guardar declarações para a posteridade, acreditando que um oráculo a dizer «0,201 segundos» explica tudo.

O tal vídeo mostra as rodas do carro a mexer com o semáforo aceso, durante um frame. Um quadro. Um frame. É uma fração de tempo impossível de aferir a olho nu. Num segundo das nossas vidas, transposto em filme, cabem 25 frames. «Vinte e cinco frames por segundo», se calhar já ouviu esta expressão, corriqueira para quem trabalha em audiovisual e multimédia, é a velocidade a que os filmes passam por nós.

Segundo a tal regra que tem mais de vinte anos, e que raramente tem sido chamada à colação porque, convenhamos, os pilotos de Fórmula 1 são do melhor que há no mundo e estão altamente treinados para evitar falsas partidas (a não se chamem «Maldonado», que foi o último a fazer uma falsa partida, em 2012), a capacidade do ser humano reagir ao apagar de uma luz é de 0,2 segundos. Dois décimos de segundo. 0,200 segundos. Em dois décimos de segundo cabem cinco frames de 0,04 segundos cada. Portanto, tecnicamente, a não ser que as rodas do Mercedes de Bottas sejam mostradas, em filme não-manipulado, a mexer durante pelo menos seis frames antes do semáforo apagar, a partida terá sido legal. Ou seja, a reação de Bottas ao semáforo foi de cinco frames e um milésimo. Ou 5,4 frames.

Isto é conversa técnica a mais. Perdão por isso. A FIA explicou que acima de 0,200 segundos aceita o tempo de reação. Se tivesse sido de 0,199 segundos, teria sido penalizado. Ponto final na polémica estéril.

Custa-me perceber porque se tenta descobrir uma irregularidade à força num assunto que – embora mal explicado publicamente pelo regulador – tem uma explicação científica. Da mesma maneira que não percebo por que motivo ninguém (ou pouca gente) protestou contra a manobra de Bottas no arranque para a corrida de há 15 dias, em Baku, provocando uma colisão que estragou a corrida a Kimi Räikkönen. Dessa ninguém protestou. Bottas acabou em segundo e se calhar devia ter sido penalizado. Esses 18 pontinhos foram muito importantes para o «cara legal» estar, agora, a 35 pontos do primeiro lugar do campeonato. Veremos se a corrida de Baku não será mesmo decisiva para as contas, no final da época.

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