Um dos menos espetaculares, mas mais significativos concept-cars do último salão de Frankfurt foi o Vision EQ Fortwo. Antevê uma Smart totalmente elétrica, num verdadeiro regresso às origens.

Quando Nicolas Hayek decidiu criar uma indústria automóvel na Suíça, o seu plano era transferir para as quatro rodas o sucesso que tinha tido com os relógios Swatch. A sua ideia era fazer um pequeno citadino de dois lugares, facilmente personalizável, com baixo custo e com motor elétrico. Depressa percebeu que não era tão fácil fazer automóveis, como relógios de quartzo com caixa de plástico colorido e ligou-se à Volkswagen num acordo assinado em 1991. Os engenheiros alemães rapidamente o convenceram de que o mais exequível, para atingir os baixos níveis de emissões que eram uma prioridade de Hayek, seria fazer um modelo híbrido, que desenvolveram durante dois anos. Tinha um motor a gasolina que fazia de gerador para carregar uma bateria que alimentava quatro motores, um por roda. Mas os testes nem sempre corriam bem. A eletrónica ainda não era o que é hoje e acontecia que os quatro motores não transmitiam às rodas o binário necessário a cada uma delas a todo o momento. Dessincronizavam-se e o carro entrava em pião a meio de uma reta, sozinho. Quando Ferdinand Piëch tomou o lugar mais alto da VW, viu a quantidade de dinheiro que já se tinha gasto neste Swatchmobile, consultou os seus especialistas de mercado e concluiu que o projeto não era viável, retirando-se do negócio. Hayek ficou sozinho, mas não durante muito tempo.

Em 1994, assinou um acordo com a Daimler e fundou a Smart. A companhia, então liderada por Jürgen Hubbert, viu futuro num projeto que incluía não só um citadino revolucionário, mas também um plano de marketing inovador e um método industrial que prometia fazer inveja às mais eficientes marcas japonesas, que então dominavam nesta área. Claro que as versões elétrica e híbrida foram para a gaveta, substituídas por motores a gasolina e gasóleo. Mas o início da aventura, com o lançamento do City Coupé em 1998, não foi fácil. O conceito era demasiado ousado para um mercado ainda muito conservador e o plano de marketing apelava a valores pouco comuns, como a ironia. O crescimento da rede de distribuição, também ela com demasiadas inovações foi lento e a Smart demorou a crescer. A Daimler nunca revelou dados concretos, mas alguns observadores dizem que a smart deu prejuízo durante a sua primeira década de existência, pelo menos. Na verdade, por três vezes a Daimler esteve à beira de fechar a Smart, mas talvez o orgulho e uma ténue esperança a tenham mantido viva. O plano de alargamento da marca teve vários falhanços, a começar pela “joint-venture” com a Mitsubishi para a produção do primeiro Forfour, que o mercado não acolheu bem. Depois, em 2005, veio a intenção de explorar o mercado dos pequenos SUV, com o anunciado Formore, que partilhava a plataforma com o Mercedes-Benz GLK e deveria ser fabricado no Brasil, servindo de entrada no mercado dos EUA. Mas o projeto foi cancelado quando um protótipo estava já pronto a ser mostrado no salão de Frankfurt de 2005. Mais uma vez, a falta de rentabilidade foi o problema.

A joint-venture com a Renault, para a produção da terceira geração do Smart Fortwo e Forfour parece estar a ter resultados bem melhores. A partilha de componentes é quase total com o Twingo, o que deverá ter reduzido drasticamente os custos. Pode dizer-se que, à terceira foi de vez, até porque as versões elétricas começaram finalmente a chegar ao mercado tal como Hayek as tinha imaginado. Demorou, mas foi!

A Smart encontra-se agora numa situação privilegiada para encarar as enormes mudanças que se adivinham para o mercado nos próximos anos. Isso mesmo foi mostrado no concept-car Vision EQ Fortwo, que continua a ter apenas 2,5 metros de comprimento e dois lugares, mas antecipa uma gama Smart exclusivamente elétrica, algo que deverá ser anunciado no início do próximo ano, concretizando assim o desejo de Hayek. Mais do que isso, o novo Fortwo não terá volante, nem pedais… nem dono! A marca, como todas as outras, espera que as leis dos vários países sejam mudadas para permitir a circulação de automóveis totalmente autónomos. E vai aproveitar o embalo para apostar forte no chamado “car-sharing”, em que ninguém é dono de um Smart, mas todos os podem usar. O cenário traçado pela marca é contagiante: com uma aplicação no smartphone, o utilizador chama um Fortwo autónomo, que chega onde o ex-condutor estiver, à hora programada e o leva ao destino escolhido. Depois é só uma questão de pagar os minutos de utilização, via smartphone e ver o Fortwo dirigir-se ao encontro do próximo utilizador, ou para um ponto de recarga por indução, se precisar de atestar a bateria. A isto chama-se mobilidade.

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