Tenho andado a colecionar respostas a esta pergunta, das marcas que os têm lançado ultimamente, ou seja, todas. E tenho más notícias, para quem não gosta deles.

Não se passa uma semana em que não experimente um SUV. E não é por ser um adepto deste género de automóveis, é porque as marcas não param de os lançar. Aqueles a que se convencionou chamar os B-SUV, ou seja, os derivados de utilitários como o Captur, Arona e C3 Aircross, estão na linha de crescimento mais inclinada, mas todos sobem, a ponto de alguns modelos não terem produção suficiente para a procura. Os clientes vão esperando, mas a oferta é tanta que não custa muito abdicar do favorito e comprar o segundo da lista. É sabido que, hoje, quem compra um SUV tem razões muito diferentes das que tinha quem comprou os primeiros modelos deste tipo. Mas já lá vamos à parte histórica.

A posição de condução mais alta do que a dos outros carros é o fator fundamental, por permitir ver melhor o trânsito à frente e antecipar o perigo. E também ajuda a perceber onde começa a frente do carro, o que alguns condutores valorizam nas manobras de estacionamento. Muitos compradores, sobretudo os dos SUV maiores, compram-nos porque lhe dão uma sensação de segurança em caso de acidente. Acham que, por terem um carro mais alto e pesado que os outros, estão mais livres de perigo. As jovens mães de família estão frequentemente neste grupo, são elas que, para dar um exemplo de que tive conhecimento esta semana, dominam as compras do Maserati Levante na China.

Tenho perguntado a muitos responsáveis das marcas quando irá acabar esta tendência, mas ninguém parece saber a resposta. As “modas” costumam ser lançadas e controladas pelos construtores, mas parece que a dos SUV está fora de controlo. A melhor estimativa que me deram foi que “os segmentos dos SUV ainda vão continuar a crescer por mais dez anos.” Não sei se vão ser dez ou quinze, sei que, a não ser que apareça um “SUVgate”, dificilmente os compradores vão deixar de os preferir. Pelo seu lado, ter um carro com mais espaço que um de fisionomia clássica, é outra boa razão para os comprar; do lado das marcas, há muito perceberam que os clientes estão dispostos a dar mais dinheiro por um SUV do que pelo modelo que lhe deu origem, mesmo que os custos de produção sejam virtualmente iguais, como acontece muitas vezes. É bom negócio, por isso todos querem a sua fatia.

Mas o que irá acontecer no dia em que todos, ou quase todos, os condutores tenham um SUV? Por segmento, ficam todos sentados mais altos, mas à mesma altura e lá se vai a vantagem da posição de condução mais alta. E se os SUV passarem a ser tão comuns, que deixam de ser uma novidade, passando a ser tão banais como é hoje qualquer utilitário dos mais vendidos? Será que um dia vamos assistir à queda de vendas dos SUV? E a favor de quê?

Um “SUVgate” pode não ser uma realidade assim tão descabida, afinal os SUV têm muitos telhados de vidro, desde logo o favorito dos governos: por serem, em regra, mais pesados e terem pior aerodinâmica, poluem mais do que os carros convencionais. Isso já se sabe há muito tempo, mas até agora parece que ninguém está interessado em falar do assunto. Os políticos preferem diabolizar o Diesel a reparar na evidência de que fazer carros mais leves e mais aerodinâmicos seria o caminho certo, não o oposto. Claro que há sempre a resposta dos carros elétricos, que não poluem nada, sejam altos ou baixos, leves ou pesados. O que não é bem verdade. Mas isso é uma discussão que deixo para outra crónica.

Há quem diga, e eu concordo plenamente, que o primeiro verdadeiro SUV foi (sem o saber) o primeiro Range Rover, de 1970. Mas, nessa altura, as prioridades do engenheiro chefe do projeto, Spen King, estavam longe de ser o que são hoje. Ele apenas queria fazer um carro tão competente como um Land Rover, nos caminhos enlameados do Reino Unido, mas que depois pudesse ser também usado para ir à cidade, sem parecer que o condutor ia sentado a bordo de uma máquina agrícola. Talvez tenha feito o trabalho bem de mais, como o provou o papel que o Range Rover acabou por ter na indústria automóvel. Pela minha parte, lembro-me bem da primeira vez que guiei um Range Rover da primeira geração, já no final dos anos oitenta. Levava o conselho de um colega jornalista, mais experiente, que me serviu muito bem nas estradas da serra da estrela: “primeiro, tens de o deixar inclinar, quando o metes na curva, mas depois vais ver que até curva bem.” Claro que a posição de condução tipo trono acentuava ainda mais essa sensação, mas a verdade é que a habituação foi fácil e depois o RR impressionou-me pelo luxo do habitáculo e pelas habilidades em condução todo-o-terreno. Tinha estilo, é claro, mas tinha muita substância, talvez por isso a Land Rover tenha montado um novo negócio em que restaura modelos dessa geração até ficarem num estado igual ao de novo, para quem quiser pagar uma fortuna. E há muito quem queira.

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