Sandro Meda

À dimensão da memória

Há poucos dias vi morrer um Micra na A5, assassinado contra um táxi. É a única forma de matar os Micra, estes Micra dos anos 1990, que ainda andam por aí quase como quando eram novos, ainda disfarçados de “bota”, o que também ajudava a colar-lhe a imagem de “carro de senhora”, por ser tão redondinho. Ou então ganhou o rótulo em antítese à imagem de “carro de homem” da geração anterior, a primeira, que aguentava qualquer tratamento e, se bem puxado, andava como os grandes, mesmo com motor mil. Masculino ou feminino, por esta altura o Nissan Micra só não dispensava a vestimenta de carro indestrutível, fama que experimentei como passageiro frequente, ainda sem carta, em longas viagens por Portugal como se viajava nessa altura: de lotação cheia, malas ao colo e sempre com pressa de chegar. Na geração do meio, nos anos 2000, o Micra mudou novamente de personalidade e de plataforma, transformando-se num Clio de quimono. Depois de uma vida tão rica, na quarta geração o Micra foi recambiado para uma fábrica de segunda e com acabamentos de terceira, feito para ser barato e... barato. Hoje chega a quinta geração, já aqui no Teste da Semana. Tudo novo, volta a refazer-se. Agora parece um Clio, que garantem não ser. Está tudo bem explicado nas páginas à frente. Nestas linhas puxo pela memória automóvel para sublinhar o caráter desalinhado do Micra, tão diferente da normalidade sucessiva dos rivais. É assim que um automóvel também deve ser. Se correr mal, corrigem-se e relativizam-se as perdas. Se correr bem, transforma-se um mau Primera num grande Qashqai, que trouxe todos os outros atrás. E mais virão, como continuamos a assistir com lançamentos sucessivos de SUV. Na vaga de versões mais compactas, e com Portugal em alta como destino de eventos, que os apresentem na “nova” Lisboa. Que os façam elevados e curtinhos para caberem nos novos lugares de estacionamento; inteligentes e atentos para descodificarem os sinais contraditórios; acolhedores por dentro para entreterem nas voltas sem saída... Pelo menos neste ponto a política automóvel, local e nacional, passará a ser coerente! Se não nos esquecermos disso até às eleições.

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