Um C200 BlueTec ao preço de um 508 2.0 HDI ou de um IS 300h e um Peugeot que ambiciona a imagem do Mercedes e do Lexus. O circo está montado e quem tira partido do “espetáculo” são os clientes, que aplaudem de pé a acrescida diversidade na escolha.

Misturar no mesmo trabalho um Mercedes-Benz, um Lexus e um Peugeot não é inédito, mas ainda é invulgar. E dizemos “ainda” porque a divisão entre os chamados “premium” e os generalistas está a esbater-se. Não só porque estes têm como ambição chegar ao patamar de excelência dos primeiros, como os ditos premium ambicionam alargar os volumes de vendas e a base de potenciais clientes, entrando na faixa de preço dos generalistas. Confuso? Este comparativo pode lançar alguma luz sobre um trajeto cada vez mais tortuoso.

Se há uns anos ouvíssemos que a Mercedes-Benz estaria para lançar um Classe C com um motor 1.6 turbodiesel poucos acreditariam, mas ele aí está. A base é Renault (o mesmo 1.6 dCi que podemos encontrar no Mégane ou no Nissan Qashqai), mas a Mercedes trabalhou (e bem) esta unidade, não só porque alguns elementos tiveram que ser recolocados para se adaptarem a uma instalação longitudinal, como o próprio software foi alterado para condicionar a resposta do motor e torná-la mais de acordo com os anseios da Mercedes-Benz. A verdade é que, na prática, ninguém diria que debaixo do capot do novo C se esconde um pequeno 1.6 e muito menos que este é de origem Renault. Os mais atentos poderão descortinar algumas semelhanças no ruído de funcionamento, mas é só... A grande vantagem para os clientes da marca da estrela é que esta solução permite ter um Classe C Diesel, com 136 cv e 300 Nm de binário, por menos de 40 000€ (preço base), um valor que o coloca no mesmo patamar de um generalista bem equipado. O Peugeot 508 é um bom exemplo, até porque a marca francesa tem como objetivo declarado estar, no prazo de dez anos, ao nível de um premium. Se o atual 508 já está relativamente próximo, a próxima geração do familiar francês, já com a nova plataforma EMP2, promete esbater definitivamente as barreiras entre os dois “mundos”.

Então e o Lexus? A divisão de luxo da Toyota é o exemplo acabado do que referimos acima. Quando a Lexus surgiu em 1989, também ela ambicionava bater-se de igual para igual com a Audi, BMW e, acima de tudo, a Mercedes-Benz. Passados 25 anos, é senso comum colocar a marca japonesa no mesmo “cesto” das marcas referidas. E se está cansado de confundir o seu carro de serviço com os dos seus colegas de trabalho, talvez esteja na altura de equacionar um IS 300h ou até, quem sabe, um 508 2.0 HDI...

O seu a seu dono

Independentemente do motor que o move, o C é, quando enquadrado no segmento e faixa de preço, um dos melhores carros que o dinheiro pode comprar (ou alugar, se for essa a opção). O aspeto de mini Classe S podia não passar disso mesmo: aspeto. Mas não, o Classe C honra o epíteto que ostenta. O interior então é um verdadeiro tratado de qualidade e bom gosto. A montagem é primorosa e os materiais muito bons. O que torna a falta de revestimento das costas dos bancos traseiros (visível quando acedemos à bagageira) ainda mais difícil de compreender.

O interior do Lexus até é mais sofisticado, mas falta-lhe harmonia, tanto no desenho como na montagem e até na escolha de materiais. O Peugeot segue o IS 300h de muito perto, impressionando pela escolha de materiais e desenho atraente, mas há soluções de recurso (como o pequeno ecrã sensível ao toque) e um menor cuidado na montagem. Em compensação, e como seria de esperar, a dotação de equipamento distingue o 508 dos seus adversários, contemplando quase tudo o que se possa imaginar. Na próxima geração só não se esqueçam de incluir alguns espaços de arrumação para albergar objetos de uso mundano... Espaço na mala não faltará ao Peugeot, mas se quiser guardar a carteira ou o telemóvel terá de improvisar uma solução.

Onde o Lexus volta a somar pontos é na insonorização, ou não fosse o único a recorrer a um sistema híbrido. Pelo menos enquanto se mantiver em ambiente urbano ou se cumprir à risca os limites de velocidade, porque se acelerar a fundo a diferença entre o regime do motor (e o ruído) e a subida de velocidade ainda é desconcertante. Outra das vantagens do sistema híbrido fica bem patente nos consumos realmente baixos para um automóvel com 223 cv (potência combinada), mas convém não esquecer que o Lexus consome gasolina, logo o preço por quilómetro acaba por ser, grosso modo, 15% mais alto. Esta diferença não retira mérito ao Lexus, mas dilui qualquer vantagem que este pudesse amealhar face ao Peugeot. Isto porque o Mercedes-Benz é o líder incontestado na economia de utilização, outra das vantagens de recorrer a um motor mais pequeno... Mais pequeno em tamanho, mas não na genica. Se nas acelerações de 0 a 100 km/h o C200 BlueTec perde algum terreno para o Lexus e fica a quase dois segundos do 508 de 150 cv, nas recuperações é a vez do Lexus tirar partido da caixa “automática” e de o Mercedes-Benz surpreender o Peugeot ao jogar de igual para igual. A excelente relação peso/potência do C180 (os vários elementos em alumínio contribuem para o peso mais baixo) é uma razão. Ainda assim, em andamento o Peugeot parece sempre mais rápido do que o Mercedes e até do que o Lexus, que é traído pelo atraso da resposta do sistema híbrido e pela limitação imposta pelo trem epicicloidal (o limite de 200 km/h é imposto pelo regime terminal do motor elétrico). A boa relação conforto/comportamento também ajuda a tornar o 508 fácil e até entusiasmante de conduzir. Mas ao volante a grande surpresa é o C200 BlueTec. Ajudado por uma caixa bem escalonada e por um chassis muito equilibrado (mais até do que o Peugeot, quanto mais não seja porque a tração nunca é posta em causa), o Mercedes nunca dá parte fraca. Até o motor 1.6 é enérgico, desde que se mantenha acima das 2000 rpm. Ou seja: o 200 BlueTec é um Classe C de corpo e alma e, para um utilizador típico, pouco importará que tipo de motor se esconde sob o capot, desde que este cumpra a sua função sem exigir muito em troca e permita manter um andamento de acordo com a estrela que o encima.

Assine Já

Edição nº 1460
Já nas bancas

Digital Papel

Top

Os mais recentes