O novo Fiat Tipo chega ao nosso mercado com uma relação preço/desempenho invejável sobretudo com o motor 1.6 MJet de 120 cv. Mas para ver se tem mesmo o preço certo, nada como confrontá-lo com dois dos nossos campeões da classe do “muito carro por pouco dinheiro”, o Citroën C-Elysée 1.6 BlueHDI 100 cv e o Toyota Corolla 1.4 d-4D 90 cv.

Antes das carroçarias de dois volumes e das carrinhas terem tomado conta do mercado, os três volumes eram muito populares na classe dos familiares acessíveis. Hoje, a renovação das frotas de táxis tornou o C-Elysée e o Corolla uma visão comum nas nossas cidades, embora as vendas estejam longe de serem exclusivas “da praça”. Fora dos centros urbanos estes carros ainda são comprados por muitos clientes particulares. Ora, é neste enquadramento que surge o novo Fiat Tipo com carroçaria berlina de três volumes. Este é o primeiro elemento da família, que inclui o dois volumes e a carrinha, lançados no salão de Genebra (ver especial nesta edição).

Com a motorização 1.6 MJet de 120 cv o Fiat Tipo tem um preço de entrada de 20 300€, que sobe para 21 300€ na versão Lounge, mais equipada e considerada no comparativo. Somando a este valor dois extras da reduzidíssima lista de opções disponível, as jantes de 17’’ (250 euros) e a pintura metalizada (400 euros) obtemos um preço final de 21 950€, sendo de notar que a Fiat está a oferecer uma garantia de quatro anos.

O Citroën C-Elysée movido pelo 1.6 BleuHDI de 100 cv tem um preço de tabela ligeiramente mais elevado, com 20 618€ para o Sedution e 21 618€ para o Exclusive, mas beneficia de uma oferta promocional de 2000 euros para ser o mais barato. Somando à equação os 360 euros da pintura metaliza, que também é quase a única opção disponível, e feito o desconto ficamos com um preço de 19 978€ e dois anos de garantia.

E assim chegamos ao Toyota Corolla 1.4 D-4D, que é o que exige o cheque mais recheado. Em concreto, a versão Active de acesso à gama custa 24 015€, sendo que neste momento existe uma campanha (limitada ao stock existente) que oferece o mais equipado Exclusive ao preço do Comfort (isto é, desce de 26 510€ para 25 015€) e um contrato de manutenção de três anos ou 45 000 km; como as revisões são anuais ou a cada 15 000 km, isto equivale às três primeiras revisões cujo custo rondará os 500 euros. A garantia são os normais cinco anos da Toyota e somando a pintura metalizada mais dois acessórios (isqueiro e proteção da bagageira em borracha) obtemos um valor de 25 520€ para a unidade testada.

Prioridade ao espaço

A par do preço, o principal argumento dos nossos três protagonistas é o amplo espaço, seja para passageiros seja para bagagem, como é lógico quando o “sound byte” perseguido é “muito carro por pouco dinheiro”.

Desta forma, sendo o espaço um dado adquirido em qualquer deles, a verdade é que existem diferenças que importa referir. Por exemplo, enquanto o Toyota leva vantagem no comprimento para pernas e o Citroën é o “menos grande” (todos estão bem acima da média de referência do segmento C), ambos conseguem essa proeza recuando o mais possível o banco traseiro, o que tem duas consequências. Primeiro, a altura disponível fica abaixo dos 900 mm de cota de conforto (passageiros com mais de 1,75 m já vão a roçar o forro do tejadilho), pois a cabeça já fica na curva descendente da linha de tejadilho e, segundo, existe uma clara interferência do pilar C a dificultar o acesso dos passageiros. Não é grave, longe disso, mas o Fiat abdica de alguns centímetros para as pernas (afinal, 770 mm já dão para cruzar a perna) em favor de um posicionamento mais natural do banco e, com essa opção, torna-se, nitidamente, um carro mais fácil e cómodo de entrar e sair dos lugares traseiros.

Mas a maior diferença dos três está mesmo na forma como este espaço é percecionado pelo condutor e pelos ocupantes. Assim, dentro do C-Elysée não conte encontrar nenhum plástico suave ou sistemas com ecrãs táteis, tendo todo o carro um aspeto mais antigo e básico. Está lá tudo o que é necessário, mas sem qualquer requinte, como provam os comandos do cruise control e do rádio instalados em duas hastes periféricas (uma de cada lado da coluna de direção), uma solução que na PSA vai a caminho das três décadas.

Esta viagem no tempo é ainda mais evidente se entrarmos no C-Elysée depois de termos conduzido o Tipo ou o Corolla. Tanto o Fiat como o Toyota têm por base plataformas recentes, o que os torna nitidamente mais refinados e modernos, mas também diferentes. O Tipo tem um desenho mais homogéneo que puxa para cima a qualidade apercebida, ao passo que o interior do Toyota é executado em diversos módulos, o que prejudica a identidade e resulta em algumas uniões de peças em locais demasiado visíveis: um exemplo disso está no topo dos painéis das portas.

Em concreto, e não sendo (nem podendo ser) o luxo algo que esteja na mente de um comprador destes carros, a verdade é que o Fiat, tirando partido do desenho e das aplicações de pele sintética, é o que consegue criar o ambiente mais emotivo.

Potência decisiva

E se o habitáculo do tipo é o mais emotivo, a condução acompanha. O motor tem uma potência e um desempenho que o colocam bem acima dos seus rivais. Não é o mais progressivo a baixos regimes, sendo bem notório o salto de potência disponível antes e o depois das 1700/1800 rpm, mas depois de sentir este poder falta sempre qualquer coisa quando voltamos ao Citroën e, sobretudo, ao Toyota. Para completar essa vantagem dinâmica, o Tipo também é o mais competente em matéria de chassis, com a direção mais direta e precisa, a estabilidade em apoio mais positiva e a atitude mais modulável através do aliviar do acelerador. Mas, ainda mais importante que isso, tendo em conta o cliente alvo, a afinação de suspensão permite combinar um bom controlo dos movimentos de carroçaria com um rolamento redondo e confortável.

Ora, conforto é algo que também não falta ao Citroën e ao Toyota, mas ambos sacrificam mais os outros aspetos dinâmicos que o Fiat para chegarem a esse resultado. O C-Elysée é o que menos apela o condutor a fazer das curvas um foco de diversão, sobretudo em piso molhado, situação em que o Michelin Energy com índice de velocidade T revela limites de aderência muito reduzidos. Felizmente, o ESP é eficaz a intervir para manter tudo nos eixos. Em matéria de condução, o ponto forte do Citroën está na excelente disponibilidade e progressividade do 1.6 BlueHDI de 100 cv no débito de potência logo ali às 1000 rotações, o que facilita muito a condução em cidade. E ainda bem, pois o comando da caixa é o mais áspero e menos preciso.

Todavia, o campeão da condução refinada é o Toyota, pois tem os comandos com o tato mais “oleado”, mais refinado. A caixa do Fiat até é mais rápida, mas não consegue rivalizar com a suavidade do seletor do Toyota, principalmente porque esta é apoiada por uma embraiagem igualmente bem calibrada.

E os consumos? Em média são muito equivalentes, com o Citroën a usar o baixo peso e a capacidade do motor a baixos regimes para fazer menos de 5 l/100 km em cidade (mas depois a caixa de cinco de relações curtas penaliza-o a velocidade estabilizada), o Toyota a ser o mais frugal até aos 120 km/h e o Tipo a ficar ali a meio caminho.  

E o preço certo é…

O Fiat Tipo revela uma nítida vantagem dinâmica com um bom preço, equipamento completo e um desenho apelativo, pelo que ganha com naturalidade. O Toyota Corolla precisava de um motor mais potente e de um preço mais competitivo para poder ganhar. Por outro lado, e ao contrário do que dizem os preços, nesta companhia o Citroën C-Elysée parece ter um preço elevado. Lá está, o segredo está no preço certo.

Assine Já

Edição nº 1460
Já nas bancas

Digital Papel

Top

Os mais recentes