Em época de Natal que melhor prenda podia encontrar no sapatinho do que um utilitário estiloso novinho em folha, com um preço em conta e um apetite de passarinho? O C3 é novo no bairro, mas o Polo e o i20 prometem estragar a festa ao Citroën.

O ar de surpresa do portageiro quando viu o C3 que se aproximava já denunciava o que lhe ia na alma, mas não resistiu a tecer um comentário: “olha, um Cactus pequenino. Muito giro este novo Citroën”. Este foi apenas um exemplo das inúmeras reações que observámos ao longo dos dias que passámos ao volante do novo utilitário da Citroën e que ajudou a cimentar a ideia de que, goste-se ou não, o ar irreverente e até patusco do C3 1.6 BlueHDI é mesmo o seu principal trunfo. O Polo 1.4 TDI e o i20 1.1 CRDI não recebem o mesmo tipo de atenção, até porque o efeito novidade do primeiro já se diluiu nos dois anos que passaram desde o último restyling, e o segundo, apesar de elegante, não é “arrebatador”. Ainda assim, cada um à sua maneira são a prova de que um utilitário Diesel, económico e com um preço comedido, não precisa de ser chato e enfadonho.

Outro mérito da Citroën é que soube manter no interior o sex-appeal que transparece no desenho da carroçaria. É verdade que, no caso da unidade ensaiada, esta combinação Metropolitan Grey é opcional, mas acredite que vale a pena investir os 200€ pedidos neste upgrade, não só pelo reforço da qualidade interior (as aplicações em tecido dão um ar mais upmarket ao C3) como pelo aspeto sofisticado que acrescentam. O Polo não precisa destes “artifícios” para brilhar no interior, não tanto pelo desenho (similar ao de tantos outros VW), mas pela qualidade, claramente acima da média do segmento. O i20, especialmente neste nível Comfort, não provoca o mesmo impacto na irreverência ou sofisticação do desenho, nem impressiona pela qualidade dos plásticos (embora a montagem dos mesmos seja boa), mas apresenta outro argumento decisivo: o espaço para pessoas e bagagens. De facto, o Hyundai só perde ligeiramente na largura para o C3, mas bate o utilitário francês por uma margem assinalável no comprimento para as pernas atrás e na altura disponível. A bagageira também traduz as maiores dimensões exteriores do coreano e assume-se como a maior deste trio, embora vença o Citroën pela margem mínima possível (301 litros contra os 300 litros do C3). O VW, apesar de ligeiramente mais pequeno oferece 275 litros de capacidade, um valor ainda assim suficiente para as compras habituais ou um fim-de-semana a dois. Até porque, caso seja necessário mais espaço na mala, qualquer um deles permite rebater os bancos traseiros numa proporção de 60:40.

É que, apesar da vocação citadina inerente a este segmento e da contida potência dos três motores Diesel de acesso, qualquer um deles encara com à vontade uma ocasional viagem de maior duração. Embora, apesar da igualdade na potência disponibilizada, as diferentes soluções propostas pelas marcas envolvidas se reflitam na utilização. Assim, o C3 tira partido de ter o único quatro cilindros entre os presentes e da maior cilindrada (1.6) do mesmo para oferecer um refinamento e uma linearidade na entrega de potência que os concorrentes não têm. A maior disponibilidade de binário também é evidente, especialmente em ambiente urbano, facilitando muito a utilização e minimizando o recurso à caixa que, por sinal, nem sequer é das mais fluidas na atuação. No reverso da medalha, o i20 é penalizado em cidade pela menor disponibilidade de binário (180 Nm contra os 210 Nm do Polo e os 233 Nm do C3), tanto na utilização como até nos consumos. Fora do ambiente urbano o 1.1 CRDI é mais enérgico do que possa pensar, especialmente em médios regimes, e tira partido da caixa de seis velocidades para se superiorizar nas retomas de velocidade. O que não consegue evitar é o maior ruído e propensão para vibrações do três cilindros turbodiesel. Um problema que afeta de igual modo o Polo 1.4 TDI, já que o três cilindros alemão é igualmente “rude” em aceleração pura. A mais valia do VW é que o tato dos comandos (caixa e direção) é primoroso.

Item em que o Citroën não deixa os seus créditos por mãos alheias é no conforto. Herdeiro de uma tradição há muito firmada, o C3 assume-se como o utilitário mais confortável da atualidade. A marca francesa “afinou” a suspensão de forma a replicar o efeito das antigas suspensões pneumáticas e o resultado é convincente. O VW Polo curva melhor, mesmo com pneus menos “desportivos”, mas não se equipara ao C3 na absorção das irregularidades. É neste ponto que, apesar da evolução, o i20 ainda não está ao nível dos melhores do segmento. A direção é mais “inerte” e a suspensão é branda quando se queria mais firme e menos complacente com o mau piso onde o C3 passa incólume.

Como referimos, apesar de ser o mais pequeno dos três, o 1.1 CRDI não é particularmente comedido nos consumos, sendo especialmente penalizado nos consumos em cidade pela menor disponibilidade de binário que obriga a relações mais baixas e a uma maior carga de acelerador para manter a fluidez no andamento. O Polo e o C3 gastam praticamente o mesmo em ambiente urbano, mas o VW e mais frugal em estrada, com diferenças que chegam aos 0,7 l/100 km a uma velocidade estabilizada de120 km/h. Ainda bem, acrescentamos nós, já que todas as ajudas são poucas para ajudar a amortizar a diferença de preço que separa o Polo 1.4 TDI Alive do i20 1.1 CRDI Comfort+Pack Look e do C3 1.6 BlueHDI Feel. É verdade que esta série especial do Polo tem um importante acréscimo de equipamento de série, com destaque para o sistema de navegação, mas para piorar as “contas” a VW, tanto o C3 como o i20 oferecem descontos que se traduzem numa poupança de 1600€, seja diretamente no preço (no caso da Hyundai) ou em forma de equipamento (no Citroën). Mais, o i20 não só tem cinco anos de garantia sem limite de quilómetros (o VW tem os mesmo cinco anos, mas limitados a 90 000 quilómetros) como a marca coreana ainda oferece a manutenção programada e a assistência em viagem durante o periodo de vigência da mesma.

Feitas as contas, o C3 leva de vencido este comparativo depois de ter perdido para o Polo, pela margem mínima, o anterior que opunha as versões a gasolina. A diferença explica-se pela superioridade do motor 1.6 BlueHDI que parece dar razão a quem argumenta que o downgrade nem sempre é o caminho a seguir. Neste caso, a Citroën trocou o 1.4 HDI pelo 1.6 BlueHDI com vantagens evidentes para este último.

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