Grande parte do sucesso dos SUV está em fazerem os seus donos sentirem-se mais jovens e aventureiros do que as clássicas (e cinzentas berlinas). Enfim, funcionam com o mesmo princípio psicológico de um dia de Sol. O Audi Q5 é a nova estrela do segmento, mas será que o seu brilho consegue ofuscar o BMW X3 e o Mercedes GLC.

O melhor compromisso neste segmento são os motores 2.0 Diesel com potências na classe dos 180 aos 210 cv, acoplados a caixas automáticas e transmissões integrais. Ora, esta é precisamente a configuração do Audi Q5 que o importador nacional disponibilizou, um 2.0 TDI 190 cv quattro Stronic (58 841€ base), o que faz do BMW X3 20d xDrive (57 430 com caixa manual e 58 768€ com caixa manual desportiva) e do Mercedes GLC 250 4Matic 9GTronic (57 550€) os seus rivais naturais; infelizmente, o Jaguar F-Pace do parque de imprensa sofreu um incidente que o impediu de marcar presença. 

Qual o preço certo?

Estes são carros que têm de ser bem negociados e bem especificados, pois, começando a somar extras, é fácil elevar a fatura em mais de 25 000 euros, como é o caso do Q5 com tudo e mais alguma coisa que aparece nestas páginas, tal a quantidade de linhas de estilo (incluindo as desportivas S Line, M e AMG) e personalização disponíveis. Mas não é necessário gastar tanto para ter um carro bem especificado, como provam o X3 e, sobretudo, o GLC; este último, tirando partido da aposta da Mercedes Benz Portugal na versão 250d 4Matic (única opção da gama com motor Diesel de 4 cilindros), possui a melhor relação entre preço, equipamento e potência, o que permite configurar uma unidade já com “pack off road”, suspensão Airmatic, Comand OnLine e tejadilho panorâmico, entre outros, por pouco mais de 70 000€. Da mesma forma, numa consequência lógica da lei da oferta e da procura, é mais natural conseguir negociar um bom desconto no “antigo” X3 do que nos mais recentes Q5 e GLC, sendo que nesta escala de valores uma boa negociação pode valer acima de 10 mil euros. Tentar não custa.

Habitáculos refinados

Uma vez dentro dos habitáculos, e ainda antes de tirarmos a fita métrica para medir o espaço, a primeira impressão é de refinamento e qualidade. Ser o carro com mais equipamento extra instalado deste trio ajuda o novo Q5 a parecer o mais moderno e tecnológico (sobretudo com o painel de instrumentos “cockpit virtual”), com especial destaque para a boa impressão de qualidade que deixam os comandos do ar condicionado e os botões colocados por baixo.

Comparativamente, o BMW X3 nota-se mais antigo no desenho, embora o estilo dos bancos dianteiros desportivos, o excelente volante M (o melhor dos três), e  a quantidade de funções, resolução de imagem e grafismo do sistema de infotainment i-Drive combatam essa impressão inicial. Já o Mercedes, depois do trunfo tecnológico do Audi e da aposta mais desportiva do BMW, foca-se em criar uma atmosfera mais luxuosa e especial, na qual as únicas notas de dissonância são dadas por um quadro de instrumentos demasiado banal e pelo sistema de comando de voz não ter disponível o português, ao contrário dos seus concorrentes.

Ah, e já agora, o espaço habitável é equivalente, muito embora os bancos traseiros com regulação longitudinal do novo Q5 permitam optar entre mais espaço para pernas ou mais bagagem, o que oferece outra versatilidade. O Audi também é o que tem a maior amplitude de regulação da posição de condução, embora eu prefira a do X3 (o volante do Q5 é algo grande), enquanto a do GLC parece mais baixa (menos SUV) que a dos outros dois, para além de ter o volante descentrado.

X3, o rei da dinâmica

Os três possuem tração às quatro rodas, mas enquanto a Audi lança o quattro ultra (sem diferencial central com embraiagens que permitem desconectar o eixo para poupar combustível), BMW e Mercedes permanecem com a solução dos três diferenciais.

Com as suas suspensões pneumáticas (extra com um custo na ordem dos 2300€), tanto o Audi como o Mercedes possuem um pisar mais confortável e refinado que o BMW com as suas molas de aço; o GLC é mais “tapete voador” em pisos regulares e tem melhor controlo de carroçaria, enquanto o Q5 resolve melhor o ponto fraco destes sistemas, amortecendo muito bem pancadas secas e rápidas. Por seu turno, mesmo sem a opção do amortecimento adaptativo, com jantes até 18” o X3 é hoje um carro confortável, sendo normal que seja sempre algo mais agitado que o Q5 e o GLC em versão pneumática.

De resto, se o peso da direção mais elevado em cidade, o ruído do motor uma ou duas oitavas acima e algumas hesitações da caixa ZF nos modos Eco e Sport denotam que o X3 é o mais antigo do trio, a verdade é que não há outro como ele quando aparece uma estrada de curvas. Aqui, os seus rivais começam a perder a compostura e a fluidez à medida que o ritmo e a exigência do traçado aumentam. O primeiro a perder a batalha é o Audi, com mais subviragem, uma assistência de direção que aumenta demasiado o peso do volante em apoio e uma atuação mais intrusiva de ajudas como o controlo de estabilidade e a vectorização de binário; o novo Q5 nunca se sente como um 4x4 permanente, com uma “ligação mecânica” e proporcional (tipo rodas dentadas) entre o acelerador e o eixo traseiro, exceção feita a pisos mais escorregadios.

O Mercedes acompanha durante mais tempo, até porque possui o motor mais forte e a caixa que melhor o aproveita (melhor que a ZF do BMW em D e S mas ainda menos decidida nas reduções em modo manual), sendo mais redondo e que o Audi nas mudanças de direção, apresentando um tato de direção mais progressivo e mais subtil quando entram as ajudas eletrónicas, bem coadjuvado pela tração 4x4 permanente com ligeiro pendor para o eixo traseiro (no GLC a distribuição base de potência envia 55% para as rodas traseiras). Porém, neste nível continua a não existir nada com a habilidade natural para as curvas, o equilíbrio (com quatro pneus de medida igual) e a agilidade do BMW X3; o Jaguar F-Pace anda próximo, mas falta-lhe motor. Parece sempre mais leve, neutro e alerta, sobretudo em situações de mudanças de direção sucessivas, com um controlo de carroçaria excelente, muita informação na direção e reações progressivas. É o único que desliga a 100% o ESP e o único em que se sente a distribuição de potência variável entre as rodas do eixo traseiro a ajudar a arredondar o final das curvas.

Depois da tempestade vem a bonança. As curvas passaram e o ritmo baixou, ideal para rolar nos modos de condução Eco. E aqui o melhor volta a ser o Mercedes, com resposta disponível debaixo do pé direito (ao contrário do Q5 e do X3 que ficam algo amorfos, a vantagem na disponibilidade de binário do motor biturbo do GLC a baixos regimes permite-lhe acelerar sem ter de reduzir de mudança, mesmo a subir) e um modo vela muito bem calibrado, tanto na rapidez com que entra quando aliviamos o acelerador, como na suavidade com que volta a engatar o carro quando reaceleramos; nesta última situação a caixa de dupla embraiagem do Q5 (as dos seus rivais são automáticas de conversor de binário) é ligeiramente mais lenta, lenta o suficiente para se sentir um hiato de resposta entre a ação do pé direito e a reação do carro.

Esta vantagem do modo Eco do GLC é um aspeto fundamental para que o Mercedes seja o mais económico em cidade (por exemplo, o X3 não faz vela abaixo do 50 km/h) e aquele em que o modo natural de condução é este, pois tanto o Q5 como o X3 são mais confortáveis de conduzir em modo Comfort, sendo o BMW aquele em que é mais difícil fazer consumos médios inferiores a 8 l/100 km e o Q5 o que menos gasta a velocidade constante, fazendo aqui valer a redução de atrito devida ao desacoplamento (automático) da tração ao eixo traseiro nessas condições.

Aventuras: sim ou não?

A maior parte dos clientes não pensa fazer todo o terreno, mas a verdade é que as próprias marcas organizam muitos eventos desse género. A suspensão pneumática do Q5 e do GLC permite-lhes passar com mais facilidade, conforto e segurança mecânica (a maior altura torna menos provável raspar com a zona inferior do carro no chão) em zonas mais irregulares, pois podem subir a altura ao solo acima dos 230 mm, algo vedado ao X3, sendo que o Mercedes equipado com o “pack Off Road” (2500€) ainda tem a vantagem de possuir quatro programas de condução (que atuam no motor, transmissão, suspensão e ajudas eletrónicas) específicos para incursões fora de estrada e proteções inferiores reforçadas. Em contrapartida, num bom estradão de terra o BMW X3 é o que dá mais prazer de condução.

Feitas as contas

O BMW X3 permanece como o SUV mais desportivo e ágil deste segmento, mas isso já não chega para bater adversários mais recentes e refinados na soma dos pontos de um comparativo. Assim, a luta pela vitória decide-se entre o novo Audi Q5 e o ainda recente Mercedes GLC, com a estrela de três pontas a bater as quatro argolas devido a uma relação entre preço, potência e equipamento mais apelativa.

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