Com os monovolumes à beira da extinção, a Renault levou à letra a máxima “se não os podes vencer junta-te a eles” e decidiu colar a nova geração Grand Scénic ao universo dos SUV.  Será este o segredo para a sobrevivência? Para descobrir, colocámo-la perante a Citroën Grand Picasso e a Opel Zafira.

Se até a percursora Espace, a mais icónica das monovolumes europeias, se rendeu às evidências e não evitou a colagem ao universo dos SUV/crossover, seria de esperar que as gamas Scénic e Grand Scénic lhe seguissem as pisadas. E a verdade é que 20 anos após o lançamento, a Scénic enfrenta a maior (r)evolução da sua história. Ao abraçar o conceito crossover, a monovolume gaulesa ganhou vários atributos, mas um deles deitou por terra as pretensões da versão de 5 lugares. Ao subir a altura ao solo para os 159 mm, a Renault deixou a Scénic à mercê das regras das portagens nacionais, relegando a Scénic para a classe 2 e, consequentemente, retirando a competitividade comercial que lhe seria devida. Assim, a escolha no mercado nacional passou a resumir-se à Grand Scénic que, mérito dos seus sete lugares, consegue contornar as malfadadas regras e pagar apenas classe 1 desde que adote o dispositivo Via Verde. As suas adversárias não precisam destas “artimanhas”, já que pagam sempre classe 1, mas também elas oferecem sete lugares e uma acrescida modularidade interior que permite, entre outras coisas, rebater cada um dos cinco bancos individualmente ou regular o comprimento para as pernas e a inclinação das costas da segunda fila. A Zafira leva os dotes “transformistas” ainda mais longe já que, se optar pela configuração de quatro lugares, o lugar central da segunda fila pode ser rebatido e transformado num confortável encosto de braços para os dois restantes que, por artes “mágicas” podem ser deslocados para o centro, ganhando espaço em largura e um enorme desafogo. Onde a Opel ainda não bate as suas adversárias é na oferta de espaços de arrumação, que são tantos na Renault e na Citroën que corre o sério risco de “perder” os objetos que pretendia guardar. Pelo sim pelo não, não se esqueça do conselho e veja nos alçapões/gavetas sob os bancos...

Outra diferença evidente entre a Opel e as restantes está na decoração interior, claramente mais sóbria na Zafira que não tem (ainda) a panóplia de elementos digitais que dominam os habitáculos da Citroën e, em especial, da Renault. O “posto” de comando da Grand Scénic é dominado pelo já habitual ecrã tátil de 8,7”, que concentra uma miríade de comandos e funções, sendo que uma das mais curiosas é a possibilidade de rebater cada um dos bancos da segunda e terceira fila mediante um toque no botão. Por ser uma operação mecânica e com o auxílio da gravidade, esta não permite que os mesmos sejam recolocados na posição original da mesma maneira.

O sistema R-Link 2 permite ainda modificar a iluminação interior e escolher os modos de condução que, além de alterarem a resposta do motor, da caixa e da direção, ainda modificam a configuração e a cor do painel de instrumentos.

A Citroën não vai tão longe, mas também tem um painel de instrumentos inteiramente digital e personalizável e um ecrã tátil, mais modesto, mas que centraliza quase todos os comandos secundários. O para-brisas panorâmico com proteção bipartida é outra das singularidades do Grand Picasso que, assim, reforça a sensação de espaço e luminosidade que invade o habitáculo. Esta sensação é mais evidente na terceira fila, que tanto na Zafira como, em especial, na Grand Scénic resulta mais claustrofóbica. A maior altura ao solo da Grand Scénic também podia complicar a vida a quem pretende aceder aos dois últimos lugares, mas a Renault resolveu devidamente a questão com a amplitude de movimentos dos bancos da segunda fila e um piso que não é muito mais alto do que nas suas adversárias.

Aliás, foram muitos os desafios que a Renault teve de solucionar nesta passagem da Grand Scénic de monovolume pura e dura para crossover, ou quase. Outro foi a opção por jantes de 20”, que resulta de uma tentativa (bem-sucedida) de dar um maior dinamismo ao desenho e de reforçar a eficiência aerodinâmica, já que apesar das enormes jantes, estas estão “calçadas” com uns estreitos pneus 195/55 R20”. Além disso, ao propor uma única medida de jantes, a Renault pôde afinar a suspensão sem compromissos (com várias medidas teria de considerar diferentes pesos não suspensos, por exemplo). Para ajudar a melhorar a relação conforto/comportamento a Renault optou ainda por amortecedores multiválvulas. Dinamicamente, o resultado é convincente, mas a Zafira consegue fazer ainda melhor com a opcional suspensão pilotada FlexRide, um investimento (900€) decisivo para quem queira uma versão OPC Line. Com um aspeto desportivo e jantes de 19”, esta Zafira não só resulta atraente como é a mais “divertida” de conduzir depois de deixar os miúdos e os amigos no colégio. Se estiver “mãos largas” aconselhamos ainda a caixa automática Active Select. Não que a manual de seis velocidades que equipa esta unidade seja má, mas depois de passarmos uns dias ao volante da Grand Picasso EAT6 e da Grand Scénic EDC, a solução manual parece deslocada em automóveis que se querem práticos e fáceis de conduzir. O mais curioso é que as caixas “automáticas” (de dupla embraiagem no caso da Renault) nem sequer penalizam os consumos, já que a Zafira 2.0 CDTI até é marginalmente mais gulosa (0,1 l/100 km). Neste caso, a Opel é prejudicada pelo excesso de peso, handicap que se repercute ainda nas prestações, já que a Zafira com 170 cv é facilmente batida pela muito mais leve Grand Picasso com “apenas” 150 cv. Já a Grand Scénic 1.6 dCi de 160 cv é a rainha das recuperações, tirando partido da maior rapidez da caixa de dupla embraiagem de seis velocidades. Por fim, a Renault joga uma cartada decisiva neste “confronto” ao aliciar os seus clientes com uma superior oferta de equipamento e, acima de tudo, com os cinco anos de garantia, uma mais valia que, só por si, fez toda a diferença no desfecho final deste trabalho e, acreditamos nós, na decisão de compra de muitos clientes.

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