Faça chuva ou faça sol, no mais deteriorado ou composto dos pisos, o 740d não anda, desliza. Mas não se deixe enganar pelo ar solene desta berlina de luxo, com 313 cv este BMW pode fazer a vida negra a muito bom desportivo.




A apresentação deste “novo” Série 7 decorreu na Rússia, terra de oligarcas e um dos mercados de exceção para um automóvel com as caraterísticas deste BMW. E mesmo num cenário que nos era completamente estranho e com alguns hábitos de condução sui generis (procure no Youtube “condutores russos”), fiquei rendido à sofisticação e agilidade do navio-almirante alemão. Já em terras lusas, a oportunidade de passar vários dias ao volante de um 740d surgiu quase como uma prenda de Natal antecipada.

Já por várias vezes referi que, pelo menos uma vez na vida, todos deveriam ter direito a passar uns minutos ao volante de um carro como o 740d, quanto mais não fosse para ter a noção da diferença entre o patamar mais alto de excelência na indústria automóvel e os automóveis que a maioria de nós conduz diariamente. Como, infelizmente, esta é uma experiência reservada a uma minoria de afortunados, cabe-nos (tentar) transformar em palavras as sensações únicas que nos são transmitidas.

E a primeira, confesso, é a de um certo receio. Por mais experientes que sejamos, entrar para o lugar do condutor de uma berlina que custa tanto como uma casa razoável nos arredores de Lisboa pode ser intimidante. E mais ainda quando temos de manobrar esta “limusine” de cinco metros e quase duas toneladas de peso numa garagem pejada de outras “jóias” da mesma coroa. Não fosse o sistema surround view (câmaras montadas lateralmente nos retrovisores) e ainda hoje estaria para saber como é que não fiquei entalado entre um M6 Cabrio e uma M550d Touring. Nem deu tempo para olhar com a merecida atenção para o novo painel de instrumentos totalmente digital. Tudo correu pelo melhor e, já fora do ambiente de clausura, o 740d pôde, finalmente, esticar as pernas.

Mesmo a frio, o seis cilindros turbodiesel ronrona baixinho, como se estivesse receoso de incomodar quem segue aos comandos deste coche dos tempos modernos. A suspensão, que passou a ter um modo “comfort+” que é... ainda mais confortável, digere sem sobressaltos as lombas e ressaltos, mas, verdade seja dita, sem a majestosidade e total indiferença de um Classe S. Os pneus RFT não ajudam, mas nem estes, nem as jantes de 19”, são os principais culpados. É o próprio acerto da suspensão, o próprio posicionamento do Série 7, o principal responsável. Talvez porque, ao contrário de um Classe S350 CDI, o 740d continue a ser para quem prefere conduzir (e tirar prazer do ato) a ser conduzido.

Elefante em pontas
No primeiro troço livre de trânsito, pressiono mais veementemente o pedal da direita e o seis cilindros enche o peito, como que a ganhar fôlego, a caixa reduz de 5ª para 4ª, e o 740d avança como que empurrado por uma locomotiva dos infernos. Os 313 cv (mais 7 cv que o anterior 740d) e, acima de tudo, os 630 Nm de binário (mais 30 Nm) disponíveis logo às 1500 rpm diluem por completo as quase duas toneladas de peso. Os 5,6 segundos registados nos 0 a 100 Km/h são bem a prova do poder que se esconde na casa de máquinas do 740d, e as recuperações são ainda mais impressionantes.

O mérito não morre solteiro, não se devendo exclusivamente ao pujante 3.0d. Boa parte pode ser atribuído à magnífica caixa automática de oito velocidades da ZF. Rápida como poucas, decidida como nenhuma outra, consegue ser tão suave em modo Auto como eficaz e quase telepática no modo manual. É verdade que, quem compra um 740d, nunca recorrerá às patilhas colocadas no volante desportivo, mas basta que o faça uma vez para ficar rendido a uma transmissão que não fica muito longe em rapidez de atuação a uma (boa) caixa de dupla embraiagem. Mais uma vez, é esta dupla personalidade que cativa no Série 7. Esta capacidade invulgar de se metamorfosear, com um simples toque num botão, de uma berlina de representação num desportivo assanhado, é que torna o 740d num sedutor nato.

Mas o renovado 7 vai mais longe. É que 740d não tem apenas duas personalidades, mas cinco, com a adição dos modos Eco Pro e Comfort Plus (este último associado à direção ativa integral), que se vêm juntar aos Comfort, Sport e Sport Plus.

Depois de passar diretamente do Comfort+ para o Sport, e já mais ambientado ao 740d, resolvo navegar entre as inúmeras opções disponíveis. Uma das vantagens mais evidentes do novo painel de instrumentos digital é a capacidade de o mesmo se adaptar aos diferentes modos de condução.

No Eco Pro, a instrumentação ganha um suave tom de azul e o conta rotações dá lugar a um indicador do tipo de condução, tudo com o intuito de poupar combustível. Até a resposta do seis cilindros parece “estrangulada” e a caixa passa para a mudança seguinte na primeira oportunidade. Se passar para o Comfort+ ou Comfort, o painel adota uma configuração mais clássica, muito na linha do que a BMW nos habituou.

A suspensão fica mais branda (demasiado branda em algumas situações no modo Comfort+), as passagens de caixa tornam-se quase impercetíveis e o seis cilindros refreia o temperamento. Mais um toque no “driving experience control” e passamos para o Sport. O painel de instrumentos muda para vermelho, o conta-rotações e o velocímetro são realçados, a suspensão ganha firmeza, a caixa fica mais pronta para o que der e vier, e o seis cilindros Diesel responde à miníma pressão do acelerador. No último patamar, entramos num mundo a que poucos acedem e menos ainda valorizam. O controlo de estabilidade fica mais permissivo e o 740d passa de um corredor de fundo a um sprinter. Dou por mim a entrar em curva a velocidades pouco expectáveis num automóvel destas dimensões.

Pior ainda, a sair de curvas com uma atitude nada consentânea com a solenidade que uma berlina destas impõe. Não contente com isso, a BMW ainda permite desligar totalmente o DSC (controlo de estabilidade), mas não é uma atitude aconselhável a quem sofre do coração (seja o condutor ou um dos ocupantes) e é inevitável passar boa parte do tempo preocupado com a tal etiqueta de preço ou nos mais de cinco metros e no peso do conjunto. Já para não falar que, nos dias que correm, já pode ser constrangedor andar de Série 7, quanto mais praticar uma condução acrobática ao volante de uma berlina de luxo.

Mas também lhe digo que, na maioria das vezes, nem nos damos conta. Rodeados por pele, madeira e alumínio, sentados num dos melhores bancos dianteiros que esta indústria produz (bancos comfort), sentimo-nos isolados do mundo e quase imunes às adversidades que nos rodeiam. Talvez por isso, os mais altos dignatários da nação se fazem deslocar em viaturas similares. Será?

Indiferente a tudo isto, o 740d assume-se, sem falsas modéstias, como uma das melhores berlinas turbodiesel do mundo. Duvido até que o também novo 750d xDrive consiga obliterar o seu irmão mais novo. Até porque o 740d faz tudo isto mantendo médias de consumos que fariam inveja a familiares com metade do tamanho e peso. Mas isso é entrar em pormenores mundanos que pouco importam a quem se dispõe a pagar por um 740d. Mas também posso estar enganado...  

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